sábado, 3 de dezembro de 2022

O cabelo

As reações ao meu corte de cabelo me deixaram numa delicadeza de cristal. Fina, prestes a rachar. Os meninos não gostaram, minha diarista pensou antes de responder e minha filha tentou aliviar, dizendo que rejuvenesci. Ah, e meu marido foi embora. Eu sei, parece piada. Parece um acontecimento de filme francês, quando cada sutil ação revela-se um detonador de grandes tragédias. Nenhuma filigrana é menosprezada, pois sào ranhuras simbólicas que de repente podem quebrar toda a crsitaleira. Metáfora meio cafona, feito cristal, feito filme francês, que sou eu. É, eu. Eu sou a pior metáfora de todas. Eu cortei o cabelo e o meu marido foi embora. Simplesmente disse: "Não gostei". "Você estragou o cabelo". "Você era linda". Eu disse que eu não era apenas um cabelo. Ele disse que o meu cabelo era importante para ele. Eu disse que ele era um babaca , então. Ele disse que não me amava mais e foi embora. Isso foi na terça, no domingo ele ligou e, em mais uma virada digna de Godard, avisou que estava na casa dele. Que casa? "A minha outra casa, onde serei mais feliz neste momento". Juro, foi o que ele disse. E eu: "Não estou entendendo". E ele: "Eu tenho uma outra mulher". "Hã?" "É isso, eu tenho outra casa ja faz cinco anos. Estava aguardando a oportunidade de te contar". Dá para acreditar? Assim, na maior cara de pau. Xinguei de tudo quanto é nome e, antes de desligar o telefone, disse: "Pois eu tentei matar minha mãe!" Ele ligou outra vez. "Não entendi o que você disse, mas quero que você saiba que eu não te deixarei na mão, muito menos meus filhos. Só não voltarei mais, porque viver com você está insuportável." Insuportável, dá para crer? Eu não presto para nada. Até o meu marido, que eu achava que me amava, queria apenas meu cabelo. Teve filhos com esse cabelo. E eu nem sabia que meu cabelo era tão bonito assim.

Ano passado eu fui à praia.

 Era início dos anos 2010, e não tinha muito jeito: você se tornava um babaca ou um doidão. 
Diferente dos anos 1960, em que as drogas serviram de ponte para ideologias, e dos 1970, quando se drogar era a maneira de participar daquela cafonice, ser doidão nos 2010 não significava realmente nada.

Ninguém tomava coisas para ficar “curtindo um som”, nem para ter sacações, nem para fazer coreografias em boates espelhadas, nem para entender a mensagem subliminar do rock progressivo. As substâncias todas e muitas, consumidas naquela época escaparam dos contextos sociológicos.

Precisava sobreviver? Sim, mas isso é desculpa que vale para tudo. Sendo que não estou me desculpando. Então, 2010, babaca ou doidão, ocorria muito de os babacas serem doidões e de os doidões serem babacas até hoje não existe muito meio termo pra tudo isso.

Pra ser ilustrativa, ano passado fui à praia e vi uma coisa que finjo que não é ridícula: meu marido cruzou com um conhecido na praia e estalou, em dueto com o sujeito, um tapinha no ar. Sabe como?Você conhece esse cumprimento “jovem”? Provavelmente, não, isso não é coisa, creio, muito recente. Na academia de ginástica que eu vou todos os caras fazem assim. E os “caras” normalmente são homens mais velhos, homens com mais de quarenta anos já podem ser considerados velhos, certo? Eu acho e não é porque eu estou caminhando para os 40 que vou dizer que me considero jovem, se bem que, jovem deve ser até no máximo 35 e ponto final, mesmo que todo mundo hoje em dia se comporte feito adolescente. Outra coisa que me chamou atenção nessa mesma viagem de férias à praia - continuo detestando praia, mas finjo que gosto. Então, proponho esses mergulhos tardios pro meu esposo e filho e eles sempre concordam, daí vamos por uns caminhos enlamaçados, cruzando com bandos de gente seminua e cafona; porque nós, os jovens atuais, sabemos apreciar o rústico – e apesar de a praia estar relativamente vazia naquela tarde, um grupo de quatro homens velhos de quarenta e poucos anos com umas três ou quatro crianças de 10 ou 12 anos estacionaram um carro bem ao meu lado. Os adultos, meio bêbados, estavam cantarolando um trecho de Cocaine. Cocaine, sabe? Aquela música do Eric Clapton, pois bem, ficaram cantarolando e olhando diretamente pra mim que estava sentada em cima de um tecido esticado na areia, totalmente vestida num lugar onde pessoas seminuas desfilavam sem pudor algum. Achei a cena dos quatro homens cantando e olhando pra mim patética de tal gravidade, que optei por ignorar cretinamente, mesmo percebendo um interesse deles em interagir comigo.

Esses caras da praia não estavam sendo felizes, tampouco estavam fingindo ser como eu finjo. Nem são uns doidões como eu tentei ser, eles só são a corja da humanidade e devem estar hoje por aí, tomando caipiroscas e fumando um cigarro atrás do outro, tendo conversas acaloradas sobre política e Arnaldo Jabor depois vão colocar um rock velho com direito inclusive a guitarras imaginárias porque querem provar para os filhos que ainda tem aquela aura selvagem e jovem. Só que – eis a questão – eles não são nada disso, nem pais, nem selvagens, nem doidões, são apenas aquele tipo de gente que tentam a todo custo mostrar a juventude que ainda habita neles e com isso, só se mostram ainda mais velhos e patéticos. Eu com certeza não me permitiria ao vexame de tentar provar nada para o meu filho. 

Também não gosto de ficar bêbada na frente dele. Nem fumar diante dele eu fumei, ainda fumava de vez em quando e parei de fumar até esporadicamente, não por causa do meu filho ou de ninguém, mas porque acho um cocô sonoro voz de fumante velho. Eu vejo essas quarentonas bronzeadas e loiras com um Marlboro na boca, falando com aquela voz pré câncer – e deus me livre. 

Não, nunca me deixaria acabar assim: aos quarenta e poucos, bronzeada, com voz de fumante, cheia de procedimentos estéticos, a boca parecendo um Airbag de pica, indo à praia seminua e fazendo ensaio fotográfico sensual de lingerie na cama e publicando toda essa exposição ao máximo, tomando espumante e tentando resgatar a libido perdida por anos de sexo medíocre com o marido barrigudo que estaciona o carro - provavelmente uma caminhonete - na praia, tomando Red Label com os amigos que cantarolam Cocaine, enquanto eu estou numa roda de mulheres que trocam contatos de dermatologistas.

Não, eu definitivamente não me permito ficar assim. E não me poupo de tudo isso por saúde ou vergonha, mas por estética.

Lembranças musicais

Lembranças musicais são fundamentais para o entendimento das épocas. Já que não sei bem o que descrever, para me situar no tempo. Na verdade, até sei, mas uma história é uma história. Precisa ser entendida como um todo, mas apreciada por partes. Meu maior objetivo é esse: fazer-me entendida e apreciada, entende? Um enorme desafio, já que nunca, em toda a minha existência, eu me senti levemente tocada pela compreensão alheia. É, tornei-me uma fingida completa, o tempo todo sendo aquilo que não sou, é fácil pra mim. Essa semana, por exemplo, eu tenho fingido que sou aquela que acha legal que o marido conserte os eternos problemas da casa. Ora, eu não acho nem um pouco legal que um homem adulto passe o dia inteiro eufórico porque está conseguindo que a cisterna volte a funcionar. Nem sei o que é cisterna – como pode ter alguma importância uma coisa que nem sei o que é? Então, lógico, eu finjo. E finjo perfeitamente, porque pratico desde criança. Quando fingia que era maluca, por não ser genuinamente esquisita, tomando vidros de xarope com Optalidon. Bom, a fria-miserável-desgraçada que vos fala foi, ontem, ao dentista. Ainda não disse – ou disse? – que, hoje em dia, dou meu testemunho antidrogas para quem quiser ouvir. Já faz tempo, inclusive, que nem um analgésico eu tomo. Se já comentei essa novidade por aqui ou se alguém contou, que fique claro que parei assim, com tudo, porque fico absolutamente nervosa quando me sinto fora de mim. Etiquetas das roupas se tornam pinicantes demais pro meu corpo, minha existência se eleva a níveis insuportáveis, minhas pernas me incomodam demais, sabe? Não, ninguém deve saber. E tem um outro aspecto incrível nessa minha permanência em mim mesma: eu passei a gostar de estar onde estou. Consigo ser clara? Desconfio que não. Mas a clareza não é tão importante – o que me interessa é que acreditem que agora eu quero, mais do que tudo na vida, estar no mesmo lugar das minhas sensações, mesmo as mais tenebrosas. Não gostaria de perder um só detalhe nessa nova chance que tenho, de reviver uma realidade descrevendo-a sem disfarces. Procuro, então, demonstrar todos os mecanismos que me levaram a reagir como reagi, e a fazer o que fiz. Precisando reabrir o meu universo mais secreto, aquele que escondemos o melhor possível em nossas profundezas, por ser onde guardamos gravados os instantes exatos dos nossos sentimentos mais vis e escrotos. Quero averiguar a minha inveja, olhar de perto o meu rancor, cheirar as minhas feridas. Sentir de novo as cicatrizes de um masoquismo de uma vida inteira. Seja adorando outra vez aqueles que não me quiseram, ou rastejando em agradecimento àqueles que querem comer meu cu. As pessoas passam a vida inteira tentando abafar essa existência interior, não eu: eu vivo ali, naquele recinto, observando as minhas taras, crueldades e egoísmos. Explicando-os para fora. Então preciso de todos os sentidos alertas. Não cuspi no prato que cheirei, acho que as drogas lisérgicas, fizeram um excelente serviço em mim. A maioria dos insights que eu tive, utilizando-os para sobreviver à imbecilidade geral, veio dos alucinógenos, não nego. Continuo uma adicta, só que atuo em outras áreas. Pois então, ontem, fui ao dentista, e usei, pela primeira vez aquele gás hilariante. Olha esses caras são foda mesmo. Que invenção! Nunca senti coisa igual, sério, uma loucura, eu delirei! E dizem que nem mal faz pra saúde. Não é sensacional? Se eu tivesse compaixão por alguém, daria um jeito de colocar um tubo junto, no o leito de morte, mas caguei, ou melhor, cago pra quem está morrendo. Preciso é iniciar uma série de correções estéticas nos meus perfeitos dentes. O que não lembrava, no inicio dessa historia, é que toda a vez que eu delirava com o gás, pensava na letra de The Start Of Something.

Hipocrisia da negação sistemática.

Não aguento essa hipocrisia da negação sistemática da inveja. Por que as pessoas são assim? Por que não admitem que mentem, que fingem e às vezes morrem de raiva da felicidade alheia? Eu fujo de gente que afirma não se irritar com nada. São sem dúvida nenhuma, os mais perigosos. Porque não pensam naquilo que sentem e, sem pensar, agem. São como crianças, acreditam que um pensamento errado já é algo criminoso, então abafam suas mentes numa vaga letargia disfarçada de cuca fresca. Dizem-se calmos. Na verdade, estão atrapalhando o mundo e a natureza com seus comportamentos antinaturais. Não existe o bem-estar completo, e isso definiu o ser humano. Gente que não se incomoda com nada é o atraso da humanidade. Assim como gente que diz não sentir ciúmes é o viés do amor. Prefiro arder, Prefiro sentir a ser. Sinto inveja, mas não sou invejosa. Sei que as sensações antecedem as ações, e é a ação que vale. Sendo essa consciência a única forma de nos frear antes do abuso. É o desejo de dar uma surra num filho que impede a surra. Sente-se vontade de estrangular um bebê que chora a noite toda, e imaginar essa hipótese é que nos faz ver que um filho é a coisa mais importante da vida. Eu morreria de inveja de ver uma filha sair linda pra se encontrar com os amigos; mas não infernizaria a vida dela, como minha mãe fez comigo. Irei, isto sim, melhorar, entendo o que sinto, porque eu não sou o que sinto.

O Documentário

Sentou-se no sofá, assistindo um documentário qualquer com o volume tão baixo que ela só conseguia captar uns lapsos de sons, sem conseguir escutar algo que prestasse. Abriu a bolsa e tirou um cigarro, terminou este e tirou mais um. Fumou vários, um atrás do outro e foi quando ela passou a pensar com quem poderia ter um caso. Um caso rápido, só pra levantar a moral e não enfartar de virgem – sim, ela está há exatos dois anos sem trepar, sente-se praticamente uma virgem –, mães solteiras devem se preocupar somente com filhos e problemas de trabalho. Libido é coisa pra se manter guardada, estagnada, então foi o que ela fez: trancou a sua sexualidade numa espécie de masmorra interna. Além de profunda, coberta por alguma gosma borbulhante de asco protetor, subproduto da gravidez, para repelir qualquer tentativa de resgate. Sua cabeça quase desmanchando, diante de uma longa reportagem sobre a Bíblia. Até que ela percebe que não está dando a menor importância ao que está apenas vendo, já que nada escuta e sai de fininho, para fumar no banheiro.
Faz sempre isso, em todo tempinho que sobra, fumar na sala foi algo fora do comum, já que se importa muito com a possibilidade de seu filho perceber o mau hábito da mãe. Fuma na frente do espelho. Impavidamente assombrada com a imagem que tem.  Pois é visível que esse hábito lhe abre os poros e que sua solidão é imensa, é uma condição inerente à sua nova opção de vida. Assim, a última vez que transou foi quando engravidou, mais de dois anos atrás, lembra refazendo as contas. E a ultima masturbação foi antes ainda, já que a ideia de parar tudo pra ficar pensando sacanagem e esfregando o clitóris lhe parece simplesmente ridícula. Sente-se, portanto, incapaz de sequer jantar com um homem – incapacidade que procura justificar de várias maneiras sensatas, nenhuma convincente. Pois ninguém entende tão bela moça, livre, aos 26 anos, adepta da castidade. No entanto, para ela, nada lhe parece mais atraente do que um cigarro, um espelho e uma coca zero. No máximo, quando o filho está dormindo, tira a roupa para poder ver seu corpo.

- Reaja, corpo, reaja!

Não quer um envolvimento definitivo. Absolutamente nada que possa descambar pra uma relação duradoura. Quer dar cinco vezes somente. Com sorte, na segunda vai ser bom e na quinta ela vai explodir saciada, tudo resultando numa pele ótima. Num corpo um pouco menos distante da morte. Ok, não quer pensar nisso, sempre evitou o tato e a cerimônia precipitadamente indagativa, ainda em luta contra a timidez. Quando era mais nova, resolveu esconder essa sua fragilidade atrás de uma postura levemente masculina. Não deu certo, claro. Tenta às vezes outra estratégia: fazer-se de maluca. É mais bem sucedida nesse disfarce, tanto que teve um filho.