sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Uma genética dramática

Nasci sob o signo da desaprovação, sabe-se lá porquê. Desde pequena, recordo bem disso, nada que partisse de mim agradava as pessoas. Veja bem, quando digo “pessoas” refiro-me a uma maioria cujo meu contato era obrigatório e não por escolha: professores, colegas de escola e depois os de trabalho, parentes que eu não escolhia encontrar todo final de semana, meus pais. Nunca um elogio foi feito, a coisa alguma; jamais um carinho ou palavra animadora, sequer um olhar afetuoso me lembro de ter recebido. Aliás, parecia que essas pessoas não podiam me olhar; sério, não tenho memória dos olhos apontando em minha direção, em momento algum - fora a desaprovação - eu passava por eles como um fantasma, um espectro desagradável que vez por outra e quando fazia algo, era notável sob forma de repreensão. E, conforme fui crescendo, esse abismo entre as pessoas parecia ir aumentando.

Em casa existia aquela mulher fria, dita minha mãe, toda “íntegra e caridosa”, absolutamente preconceituosa e, pior, orgulhosa da sua ignorância. Acho até que herdei essa frieza prática dela e nem isso a fez gostar um pouco de mim.

Chato, mas agora vou ter que dar uma parada. Estou meio enjoada. Essa parte do desamor me atinge o estômago e faltam poucas páginas para eu terminar de ler um livro que me comoveu muito. Parei de ler, agora há pouco, pois senti uma vontade danada de chorar, e não sou boa em abafar rompantes. Também não estou a fim de ficar soluçando em frente ao espelho do banheiro. Mais um hábito que cortei da minha lista. Parei de fumar assim, assistindo ao horror dessa ação no meu reflexo. Não pretendo parar de chorar, claro que não, chorar é saudável, eu sei e sou masoquista, não sei se já deixei isso claro aqui. Foi uma descoberta bem recente que fiz num outro livro que li e explicou o fato de eu ser tão grata ao outro, quando ele repara em mim. Fazendo com que eu aceite qualquer abuso, vindo desse “sujeito amoroso”, como um ato de afeto. É que quando me sinto amada, parece que, enfim, posso viver algum tipo de calma, em ser essa que sou. Alguém que já experimentou a mais cruel das rejeições: a de mãe e pai ao mesmo tempo. Então, no momento que esse “amante gentil”, incrivelmente sábio e bom, olha para mim e me aprova, é como se esses pais negligentes tomassem o corpo dele emprestado, voltando a existir naquele ser momentaneamente “perfeito”, a fazer coisas desagradáveis em mim. E, nisso, eu pudesse sentir o alívio do perdão.

Ora, não estou aqui para me justificar. Se conto isso, é por causa dessa rara qualidade que tenho: a generosidade da alma. Que me faz querer o compartilhar do entendimento. Não somente sobre mim, mas, se você for capaz de perceber, sobre todos nós. Os carentes, os loucos, os chatos, os cansativos. Todos nós somos assim, frágeis, em circunstâncias que fogem ao nosso controle. São as tais ressalvas. A maioria delas provocada à força, quando somos revisitados pela mesma velha, humana e implacável sensação de abandono. Mas voltando à questão: sou masoquista. Auto diagnóstico que dói, porque não gosto de diagnósticos. Já gostei, confesso, quando achava chique ser hipocondríaca. Atualmente, sinto-os como que uma capa de caderno cheio de postites. Essa mania, moderna que detesto de, talvez, precisar de referências para tudo. Marcamos nossos livros de arte, de capa dura, com anotações imaginárias para um dia podermos lembrar: oh, sim, essa cadeira é pré-alguma-coisa, ou pós-alguma coisa, ou da fase intermediária entre uma coisa e outra. Acho isso um saco. Notei essa tendência mais fortemente quando me tornei mãe. As mães querem ser mais cultas ou acham que são, por isso têm mais repertório de designações. E, você sabe, repertório é um troço perigoso nas mãos dos tolos. Um imbecil letrado é algo dantesco. Mil vezes os imbecis ignorantes, mil vezes os analfabetos. São os especialistas em coisa pronta que me oferecem os diagnósticos. As pessoas que conheço e conheci no meio de tanta desaprovação nesses anos todos, por exemplo, são sempre umas experts em ideias gerais. Sabem tudo que já foi dito sobre tudo que já foi pensado sobre os assuntos. Mas são incapazes de criar alguma nova verbalização que altere a anterior. Apenas designam todo mundo, e tudo que todo mundo faz, com algum nomezinho específico.

Voltando ao assunto, quando digo que parei o tal livro e quis chorar, foi porque cheguei num trecho que o autor transcreve, do Schopenhauer, que repetirei em seguida, com um certo constrangimento, pois não verifiquei a citação na fonte. Seria fácil, já que ele é, junto com Nietzsche, um dos meus preferidos; mas foi assim, por meio de um bom bestseller, que tive o azedume do primeiro contato, tão importante, por ser o que produz a identificação; e talvez, com o processo, a cura. Aí vai: “O peso do talento fez com que eu ficasse mais ansioso e desajeitado do que já sou por herança genética. A sensibilidade dos gênios faz com que sofram mais e sejam mais ansiosos. Estou convencido de que há uma ligação direta entre a ansiedade e a inteligência.”

Creia, eu sei que o termo gênio, aplicado a meu caso, não passa de um absoluto exagero. Eu mesma não vejo, em mim, nada de genial – e olha que eu tento. Mas não vou negar que tenho esse talento para o lado mais sensível, para as partes mais chatas da vida, e isso me deixa exposta a mais ataques emocionais que os outros. Sou completamente ansiosa. Mas sou também inteligente e, assim, faço da ansiedade uma motivação artística. Vindo a me tornar o que sou: uma artista da vida real. Uma espécie de atriz performática full time, o tempo inteiro atuando para o mundo exterior, só que secretamente uma cientista, pesquisando todas as reações à minha atuação. Fico espionando, e catalogando na minha cabeça, tudo, nos mínimos detalhes. Então, bem-vindas as minhas oscilações, pois serviram para alguma coisa. Bem-vindos os meus ataques, já que se tornaram texto. Não que eu não vá, com o tempo, querer aplacar os meus nervos. Não quero acabar a louca de pedra que previram, durante minha infância, nem a psicopata, que previram na adolescência, mas estou divagando muito e é isto o que me preocupa: receio que ainda haja algum perigo rondando a minha cabeça. São os meus inimigos invisíveis. A tal da herança genética, acho, manifestada sobretudo em meu perfil obsessivo. Que me põe diariamente em desarmonia.

O meu marido me acusa de às vezes ser chata, insuportavelmente chata. Porra, eu sou é sensível. Ele não sabe o quanto sou boa atriz, sendo agradável o resto do tempo. Ele não sabe que eu sou uma artista de tempo integral. Por isso, e só por isso, eu o perdoo por toda a sua grosseria e raiva desmedidas. Em dias como ontem, quando nada do que ele vociferou, enquanto brigávamos, chegou a me ferir pessoalmente. Sendo a única coisa que eu gostaria é que ele conseguisse, feito consegui, detectar em si próprio toda a chatice, a maluquice e o perigo, que ele costuma apontar nos outros. Eu sinto, e pressinto, e vejo coisas acontecendo 24 horas por dia. Grandes ações tomam forma ao meu redor, ao mesmo tempo, em todas as direções. Preciso estar dopada para conseguir lidar com meus sentimentos, meus pensamentos que não param de borbulhar e que me deixam exausta mesmo quando passo um dia inteiro deitada. Poderia ser mais detalhista nesse exercício, do olhar vasto, e ensinar um pouco; ele – este olhar – ficou claro quando assisti ao vídeo da festa de aniversário de dois anos do meu filho. Como não tinha sido eu que o havia gravado, pela primeira vez, pude ver tudo que se passava, enquanto eu existia. Vi a mim mesma, para lá e para cá, presente e distante; nossa, foi lindo. É lindo – está tudo, novamente, acontecendo agora e eu corro o risco, se estiver tão viciada em aguardar retornos aos meus atos, em calar tudo isso com fármacos, de perder esses maravilhosos momentos. 

Preciosidades de todas as ordens: familiares, sociais, sexuais, espirituais, fúteis. Perder momento algum, lindo ou feio, aliás, não posso mais. Não pretendo dar ênfase ao período em que delirava nos meus pensamentos e incansáveis opiniões sobre os que me cercam, mas garanto que nenhuma temporada na Sorbonne poderia oferecer tanto. Tudo me pareceu diferente a partir de lá, sendo sobre essas diferenças que quero falar. É gozado isso, pois este é um assunto que tratei apenas com uma psicóloga e sempre me incomodou o fato de tudo ter acabado ali, no sigilo de uma profissional. Já que o meu marido não sabe de nada do que se passa na minha cabeça esquizoide, meu filho também não e amigos eu não tenho. Segredos, portanto, estou cheia deles e incorporo mais e mais, diariamente, porque tenho meus sentidos apurados, como uma pessoa que já tenha sido encarcerada. Quem passa uma semana trancada num quartinho escuro sem tomar banho e sem querer ver ninguém, não tem jeito, desenvolve uma extraordinária habilidade para desvendar detalhes escondidos.

A propósito, hoje de manhã, comprei os meus remédios na farmácia e notei que a moça que me atendeu, no mês passado, havia clareado os pelos dos braços. Por que uma mulher como ela, trabalhando num lugar daqueles, clareia os pelos dos braços, e um mês depois eu percebo? Esse tipo de coisa que me ocorre, entende? E outras mais sofisticadas, claro, citei essa mais para exemplificar o nível de detalhe. Não pretendo me tornar uma entendedora de coisa alguma, apenas me dou o direito de tirar as minhas conclusões e criar algumas designações; roubando um trocinho dali outro daqui, já que leio muito, porém basicamente me abastecendo de minhas experiências. Por isso denominei esse microscópio” grudado em minhas retinas, e toda essa intuição de sobrevivente, de “boia contra o afogamento do desamparo”. Ou apenas: boia. Porque sinto-a presa ao meu corpo, erguendo-o do nível normal de perigo. É feita de um material especialíssimo, que une medo, frio, sede, fome, dor, saudades e calor de febre. Subprodutos do desamparo, portanto mais leves que ele. Meu Deus, é preciso ter boias resistentes, para quando pularmos das janelas, para quando sentirmos o chão fugir debaixo dos nossos pés. A mesma agonia do bebê, que depende do outro para comer, beber, virar, para tudo – bosta de carência básica infantil, que nos torna para sempre patéticos. 

Maldita genética dramática, que me persegue na sombra. Não quero emocionar ninguém, juro. Quero mais é enfiar um pau no cu dos que se emocionam.


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