sexta-feira, 2 de dezembro de 2022
Ninguém aguenta a realidade.
Anos fodidos. Seria um trocadilho, se eu não os detestasse. Depois de “Anos Dourados” e “Anos Rebeldes”, vem aí, dãããããã, “Anos Fodidos”. Não ria, pois não é engraçado. Não é porque optei por uma estrutura mais divertida que serei engraçadinha. Apenas rolou de ser assim: foram anos em que, fodidamente, acreditei que estar drogada facilitava o fato de eu ser estranha. Porque você fuma um baseado e as coisas parecem mais leves. O problema é que, então, talvez seja melhor tomar logo um ácido. Você já é, ao natural, tão absurda e sem sentido aos olhos dos outros, que é melhor ficar chapada de uma vez, falando enrolado. Com os olhos vermelhos emoldurando pupilas dilatadas. Esse é o visual que combinará com você, porque você é uma freak, e a qualquer instante morrerá com seus excessos. Hoje em dia, nem sonharia em tomar um ácido, ou fumar um baseado. E bebo, quando muito, um chope. Gozado, não é? Eu acho, acho engraçadíssimo que eu, logo eu, tenha me transformado nesta pessoa sóbria e dissimulada que sou. Acho mesmo. O que me tornei, juro, é a maior dificuldade de contar sobre a minha vida. Alguém que tinha uma forte fixação por junkies alemães. Quando li o Christiane F., fui tomada pela mais pura curiosidade mórbida. Curiosidade e medo – eis uma forte candidata a caso perdido. Afinal, sim, é terrível aquela situação; mas preferia mil vezes estar descacetada numa rua de Berlim, chupando picas azedas pelos becos, do que estar em Belém, assistindo ao Silvio Santos falando sobre seu carnê. Mil vezes ficar jogada na sarjeta de Kurfürstendamm do que passar feriadões em Salinas. Numa casinha mínima, muito mais longe da praia do que onde morávamos. Mas todos tínhamos que nos despencar para lá, e ficar felizes em dormir pelo chão, e ver televisão com fantasma, porque era férias e ia dar pra viajar. Se você não quer que a sua filha se torne uma Christiane F., desculpe, deve oferecer a ela melhores opções do que as que me ofereceram. Ninguém aguenta uma realidade tão intensamente medíocre quanto aquela.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário