sábado, 3 de dezembro de 2022

Lembranças musicais

Lembranças musicais são fundamentais para o entendimento das épocas. Já que não sei bem o que descrever, para me situar no tempo. Na verdade, até sei, mas uma história é uma história. Precisa ser entendida como um todo, mas apreciada por partes. Meu maior objetivo é esse: fazer-me entendida e apreciada, entende? Um enorme desafio, já que nunca, em toda a minha existência, eu me senti levemente tocada pela compreensão alheia. É, tornei-me uma fingida completa, o tempo todo sendo aquilo que não sou, é fácil pra mim. Essa semana, por exemplo, eu tenho fingido que sou aquela que acha legal que o marido conserte os eternos problemas da casa. Ora, eu não acho nem um pouco legal que um homem adulto passe o dia inteiro eufórico porque está conseguindo que a cisterna volte a funcionar. Nem sei o que é cisterna – como pode ter alguma importância uma coisa que nem sei o que é? Então, lógico, eu finjo. E finjo perfeitamente, porque pratico desde criança. Quando fingia que era maluca, por não ser genuinamente esquisita, tomando vidros de xarope com Optalidon. Bom, a fria-miserável-desgraçada que vos fala foi, ontem, ao dentista. Ainda não disse – ou disse? – que, hoje em dia, dou meu testemunho antidrogas para quem quiser ouvir. Já faz tempo, inclusive, que nem um analgésico eu tomo. Se já comentei essa novidade por aqui ou se alguém contou, que fique claro que parei assim, com tudo, porque fico absolutamente nervosa quando me sinto fora de mim. Etiquetas das roupas se tornam pinicantes demais pro meu corpo, minha existência se eleva a níveis insuportáveis, minhas pernas me incomodam demais, sabe? Não, ninguém deve saber. E tem um outro aspecto incrível nessa minha permanência em mim mesma: eu passei a gostar de estar onde estou. Consigo ser clara? Desconfio que não. Mas a clareza não é tão importante – o que me interessa é que acreditem que agora eu quero, mais do que tudo na vida, estar no mesmo lugar das minhas sensações, mesmo as mais tenebrosas. Não gostaria de perder um só detalhe nessa nova chance que tenho, de reviver uma realidade descrevendo-a sem disfarces. Procuro, então, demonstrar todos os mecanismos que me levaram a reagir como reagi, e a fazer o que fiz. Precisando reabrir o meu universo mais secreto, aquele que escondemos o melhor possível em nossas profundezas, por ser onde guardamos gravados os instantes exatos dos nossos sentimentos mais vis e escrotos. Quero averiguar a minha inveja, olhar de perto o meu rancor, cheirar as minhas feridas. Sentir de novo as cicatrizes de um masoquismo de uma vida inteira. Seja adorando outra vez aqueles que não me quiseram, ou rastejando em agradecimento àqueles que querem comer meu cu. As pessoas passam a vida inteira tentando abafar essa existência interior, não eu: eu vivo ali, naquele recinto, observando as minhas taras, crueldades e egoísmos. Explicando-os para fora. Então preciso de todos os sentidos alertas. Não cuspi no prato que cheirei, acho que as drogas lisérgicas, fizeram um excelente serviço em mim. A maioria dos insights que eu tive, utilizando-os para sobreviver à imbecilidade geral, veio dos alucinógenos, não nego. Continuo uma adicta, só que atuo em outras áreas. Pois então, ontem, fui ao dentista, e usei, pela primeira vez aquele gás hilariante. Olha esses caras são foda mesmo. Que invenção! Nunca senti coisa igual, sério, uma loucura, eu delirei! E dizem que nem mal faz pra saúde. Não é sensacional? Se eu tivesse compaixão por alguém, daria um jeito de colocar um tubo junto, no o leito de morte, mas caguei, ou melhor, cago pra quem está morrendo. Preciso é iniciar uma série de correções estéticas nos meus perfeitos dentes. O que não lembrava, no inicio dessa historia, é que toda a vez que eu delirava com o gás, pensava na letra de The Start Of Something.

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