sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

True Colors

Ela só percebeu que havia esquecido de anotar o número do telefone num lugar mais seguro quando já tinha lavado metade do número da palma da mão. Dormiu tentando reconstituir aquela sequência em sua mente. Acordou e recorreu ao serviço 102, aguarde um momento, a informação não consta. Pegou o carro e voltou ao lugar. Agora, um arbusto esquálido tapa-lhe exatamente a visão da faixa, enquanto passa em frente à casa. Procura um estacionamento, não encontra. Dá três voltas no quarteirão atrás de uma vaga. Volta pra casa puta da vida, larga o carro aberto na garagem. Esperando o elevador chegar, pensa na possibilidade de deixar tudo aquilo pra lá. Pensa e despensa. Não pode deixar pra lá uma casa tão peculiar e convidativa. Peculiar, no ar sombrio dos seus muros encardidos e nas amplas janelas. Convidativa, nas imagens que a peculiaridade traz a ela: piano, barra, espelho, barra. Repetições. Movimentos dolorosos. Beleza. Suavidade. Balé. Foi até lá a pé. E numa rapidez juvenil, de quem corre para não perder a vez. Talvez na fila para um show dos Smiths. Era ela atrás de um sonho do passado.

Mas a escola está fechada. Num papel plastificado, preso no portão, descobre que a secretaria só funciona após as 14 horas. Fica transtornada. Subitamente é tomada por uma tristeza de excepcionais tons negativos. Mulheres são assim, depressivas. Pois transformam simples vontades em necessidades vitais e, diante de uma transitória impossibilidade, distorcem as sensações até torná-las insuportáveis. Uma espécie de TPM zoadical, algo meio físico, meio metafísico, energético, quem sabe, bioquímico, com certeza, que lhes ataca as ideias, enlouquecendo-as. E, por uns segundos, ela pensa seriamente em se jogar em frente a uma Kombi que está vindo. Uma Kombi de frete. Sequer o convite de ir a uma loja e comprar algo que lhe agrade muito, aplacaria aquela decepção. A Kombi passa. Ela, com os olhos marejados de lágrimas confusas, encosta num carro estacionado. Saca o telefone celular da bolsa. Aperta os botões sem convicção de que está acertando o número. Dá na secretária eletrônica. Ela aguarda, calmamente, o bip, para deixar seu recado histérico.



- Sou eu. Me liga, por favor. Estou no celular. Tchau



Como de hábito, instantâneamente arrepende-se do que fez. Pensa no quão patética acabara de ser, revelando sua suscetibilidade a um desconhecido. O seu analista. Durante as consultas, mostra-se tão forte – ou no mínimo engraçada em sua fragilidade. Ligar do meio da rua, pedindo ajuda, pelo celular; e ainda dizer-se no celular. Como se ela estivesse lá dentro dele. Uma mulherzinha esganiçando, malocada num motorola. Desatinei – conclui. Você desatinou... – cantarola, ainda recostada no carro. Tirou partido de mim, abusou. Tirou partido de mim abusou. Tirou partido de mim, abusou. E agora? O que fazer? Para onde ir? É manhã ainda, não pode passar horas parada na frente dessa escola. Não pode voltar pra casa e, muito provavelmente, desistir de tudo. De estudar balé. De experimentar novamente aquela sensação de não ser boa bailarina. Pois ela nunca dançou realmente bem. Dançou bem. Meia-bomba. Esforçou-se. Mas não possuía o talento. Poderia, sim, tornar-se uma professora, ou uma dançarina de fundo de uma companhia também meia-bomba. Quando teve a consciência deste fato, culpou todos os cursos que fizera até então, xingou os pais, e partiu para londres. Crente de conseguir alguma coisa na Royal Academy of London. Never. Completa tolice enganar-se daquela forma. Então encarou o problema de frente. Corajosa. Firme. Ate auto-irônica: eu não sei dançar, tanto quanto eu não sei cozinhar, tanto quanto eu não sei costurar, tanto quanto eu não sei escrever, ou cantar, tocar algum instrumento, pintar, ser mãe, ser filha ou ser a puta que o pariu e foda-se também. Guardou seu sonho. Mascarando o desapontamento numa cara de quem não está nem aí pra nada.

Neste preciso momento, está parada diante de um novo fracasso. E não é mais uma menina. Não é mais uma menina. Não é mais uma menina. Nunca quis ser uma menina. Lembra-se disso. Nunca quis ser uma menina que tem que dar explicações aos outros. E mesmo que as dê, não precisava dar, caso não quisesse. Poderia sumir. Fugir dali para Piricota do Mato Fundo. Esquecer o balé. Esquecer de tudo. Está tendo uma crise de nervos encostada num Passat velho cor verde-pampa. Pelo menos não é uma Brasília. Repara nas duas outras casas, vizinhas à escola. Numa tem uma placa na fachada, é incrível tratar-se de uma casa de repouso. Poderia entrar e tirar uma sonequinha até as duas? Na outra, do outro lado tem uma bandeira. Ela fica intrigada. Consulado polonês?! Será que poderia pedir asilo, e partir para este país sem eira nem beira, com um povo com fama de esquisito? Aproxima-se dessa casa. É bem maior que a da escola. Igualmente sombria. Sente-se tentada a abrir o portão e entrar; só para dar uma olhadinha. E se tiverem cães de guarda, pastores alemães poloneses? Fica na ponta dos pés, diante daquele mistério arquitetônico, para observar-lhe o interior. Que parece vazio. Aí, alguém aparece, um funcionário, e ela morre de medo de levar um esporro. Apesar de não estar fazendo nada de errado. Culpa kafkiana. Daquelas sem motivo. O homem também está ali somente para abrir o portão do lado, onde fica a garagem. E ela vê pela primeira vez o cônsul. Ele está sentado no banco detrás de um carro japonês. Na frente vai o motorista. Ela olha para o passageiro e encontra seus olhos nos dele. Estremece. Encabula. Tudo muito rápido. Tem tempo apenas para pensar em como é estranho um cônsul polonês ter um carro japonês. Injustiça com a pátria sofrida, a Polônia – de péssimos antiquados carros. Quer novamente chorar. Está num mau dia.

Vai para casa. Nem mais se lembra o que aguardava ali na sala. Sabe, porém, que é melhor ficar onde está. Se for lá pra cima, poderá sucumbir à preguiça e dormir. Não quer dormir. Não pode. Está aguardando uma coisa. Que agora lembra o que é, um telefonema. Aguarda um telefonema, portanto não pode dormir. Vidinha estúpida. Sem espaço para rebeldias ou mera contravenção. Desejava do fundo do coração ser umajovem bem doida dessas que sempre se vê por aí. Põe uma música. Egberto Gismonti. Os Tropicálias. Procura a daquele sujeito que fez só uma música que presta, mas que presta tanto que é suficiente. Como é o nome dele mesmo? Eu uso óculos escuros para minhas lágrimas esconder e quando você vem para meu lado, ai, as lágrimas começam a correr. Eu sinto aquela grande confusão. No meu corpo, sangue não corre não. Corre fogo e lava de vulcão. Lá. Láááá. Humm... Das meninas e meninos que eu encontro. Hummmm na na na na nammm... . Não, essa não é a mesma música que a do sangue corre não... Que importa? Eu fiz essa canção falando. Ta ram ram... Ram ram ramm ela vai passando... Merda... Merda! Merda! Merda! Pra quê que eu fui ligar pro meu analista? Ela olha o telefone. Ansiosa. Trêmula. Já passou pela fase do descaso. Já passou por achar que tudo bem, não estou nem aí, o idiota do meu terapeuta não me dá resposta porque ele deve ter percebido, no meu tom de voz, que não era nada importante. E ele está certo. É assim mesmo. É assim que um bom terapeuta deve fazer com um paciente como eu. Eu que, é claro, sou uma pessoa normal, não um desses casos progressivos de loucura. Isso, ele não ligou porque está ocupado. Normalíssimo. Antes, também já pensou: no quanto você, é um pulha, cretino. Que precisa deste joguinho ridículo, tolo, infantil, para provar que eu não sou tão auto-suficiente quanto eu demonstro ser. Mas eu sou! Eu não preciso de você! Ouviu bem? Não preciso! Seu gordinho de merda!... O terapeuta gordinho. É isso que você é. Não adianta ter passado vinte dias num SPA, enquanto todos os seus pacientes enlouqueciam aqui. Não adianta ter emagrecido vinte quilos. Você é o gordinho. Só que agora magro, mas ainda flácido. Depois, poucos minutos atrás, ela pegou o gato no colo, para distraí-la de seus pensamentos sobre o quanto ela precisa falar com o analista. E neste instante, ela acaba de cometer o segundo erro do dia, o mesmo erro, igualzinho ao primeiro: ligou novamente e deixou recado.

- Oi. Sou eu. Novamente. Não estou mais no celular. Estou no telefone de casa.

Que merda federal! Por quê que eu fiz isso? Merda! Hora do terceiro erro:

- Alô, é o seguinte: não precisa mais me ligar de volta. Porque eu não vou estar. Até amanhã.



Quero morrer – este é o estado em que se encontra agora. Jovem moça, sentada no seu sofá, querendo morrer. Enquanto alisa o gato Bruce. Até que é bonitinha, mas tem no rosto uma expressão triste-feia, como convém a quem quer morrer. Por que você esta fazendo esta maldade comigo?... Eu estou tão cansada... Mas tenho que sair, não posso mais esperar por você. Como se você fosse meu pai. Ou meu amante. Ou o ser humano mais importante deste mundo. Eu quero deixar claro que eu realmente não preciso de você. Merda, por quê que eu estou assim, tão mal? Não pode ser só por causa de um médico de merda que não me liga de volta. Que besteira... Por que é então, me diga? Suspira. Levanta-se da maneira que está, amarrotada e abatida, anda para a porta de saída. O gato fica. Ela pára e olha na direção dele, mas não para ele – está tentando se lembrar de algo que desconfia esquecer. Ah, sim. Tira o telefone celular da bolsa, desliga o aparelho e joga no sofá. Não estou mais em casa, nem no celular. Ninguém sabe para onde eu fui.


- Tchau, Bruce. Comporte-se.



Já na rua, pega o primeiro táxi que vê na sua frente. Sabe que o caminho de carro é um pouco mais longo do que o feito a pé e ainda está cedo. Com um pouco de sorte, talvez pegue um engarrafamento, uma trombada, um conserto bem no meio da rua, um caminhão de lixo, um folgado em fila dupla. E os ponteiros pularão de minuto em minuto eliminando aquele incômodo. Inclusive, está se sentindo muito bem ali, num lugar onde ninguém imagina onde estivesse: um Apollo branco. Gostaria de prolongar ao máximo aquele período de exílio. Ficar escondidinha, refugiada. Por onde ela anda? Ih, ninguém sabe, o médico vai ligar e uma das empregadas vai responder: a patroa anda sumida. Então ele vai tentar o celular; e dar na caixa postal, eficiente e fria. Oi, deixe seu recado após o bip, obrigada. Ri. Está cercada de placas, muito bem sinalizada, para conduzir qualquer interessado ao seu presente destino. Tem serviçais adestrados para dar o número do celular, mesmo se ninguém pedir. Quando a casa fica vazia, há a secretária eletrônica aguardando mensagens urgentes, e também oferecendo o número do celular. E há ainda a caixa postal digital do celular, que não oferece outro número, mas que tem memória para cinco mensagens. Ela parece que é uma importante e ocupadíssima profissional – doutora neurocirurgiã. Tem tudo engatilhado para que seja encontrada. Mas na maioria das vezes não há ligações, nem recados, não há pedidos de retorno. Ela é uma mulher rastreada por ninguém. Nem mesmo sua mãe necessita saber por onde a filha anda, sabe que em algum lugar ela estará sem fazer nada demais, de notável, ou imoral. Tanto faz, esta não é a questão. A questão é que ela está ocupando seu dia. Talvez até esteja no colégio. Claro, há os compromissos certos, os com hora marcada, a terapia, a yoga. Atividades que para serem cumpridas pedem apontamento. Resumindo: ela está por aí, levando como pode seus dias de tédio absoluto. E se eu fumasse maconha? Pensa nessa possibilidade, olhando as pessoas que passam na calçada, oculta atrás do vidro do Apollo branco. Seria bom. Seria um outro fazer as coisas de sempre. É. Boa ideia. O táxi vai se aproximando da casa amarela; passa por ela, e só é lembrado de parar diante do consulado polonês. Quanto foi? Aqui. Pode ficar com o troco. Eu sei, mas pode ficar. De nada. Tchau.

Enquanto aproxima-se sabe que não quer maconha. Tudo o que eu queria é que alguém cantasse True Colors pra mim. Que alguém descobrisse onde estou e cantasse pra mim. Eu não repararia nem no inglês. Podia ser num inglês ruim. Ela está voltando para casa, a pé. Satisfeita por ter conseguido marcar suas aulas de dança. Mas muito cansada. Tudo o que ela queria, além de alguém cantando o sucesso de Cindy Lauper no seu ouvido, era dar um beijo na boca sem que isso tivesse que anteceder ao ato sexual, que induzir ao coito, entendeu? Em sua vida, faz tempo, beijo significa somente isso: uma proposta o início do sexo. Não é mais afeto. Não é mais um agarro, apenas. Beijo na boca não é mais beijo na boca. Grande engano, pois boca não tem sexo. Sim, pau é pau, boceta é boceta, mas boca não é nada. Beijo na boca não deve ser sobrecarregado de grandes motivações. Beijo na boca, neste momento, enquanto ela atravessa as rua sem olhar para os lados, é alguém dizendo: “You with the sad eyes / Don’t be discouraged / Oh, I realize / It’s hard to take courage / In a world makes you crazy / And you’ve taken all you can bear / You call me up / Because you know I’ll be there / So don’t be afraid to let them show / Your true colors / True colors are beautiful like a rainbow.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário