Ninguém tomava coisas para ficar “curtindo um som”, nem para ter sacações, nem para fazer coreografias em boates espelhadas, nem para entender a mensagem subliminar do rock progressivo. As substâncias todas e muitas, consumidas naquela época escaparam dos contextos sociológicos.
Precisava sobreviver? Sim, mas isso é desculpa que vale para tudo. Sendo que não estou me desculpando. Então, 2010, babaca ou doidão, ocorria muito de os babacas serem doidões e de os doidões serem babacas até hoje não existe muito meio termo pra tudo isso.
Pra ser ilustrativa, ano passado fui à praia e vi uma coisa que finjo que não é ridícula: meu marido cruzou com um conhecido na praia e estalou, em dueto com o sujeito, um tapinha no ar. Sabe como?Você conhece esse cumprimento “jovem”? Provavelmente, não, isso não é coisa, creio, muito recente. Na academia de ginástica que eu vou todos os caras fazem assim. E os “caras” normalmente são homens mais velhos, homens com mais de quarenta anos já podem ser considerados velhos, certo? Eu acho e não é porque eu estou caminhando para os 40 que vou dizer que me considero jovem, se bem que, jovem deve ser até no máximo 35 e ponto final, mesmo que todo mundo hoje em dia se comporte feito adolescente. Outra coisa que me chamou atenção nessa mesma viagem de férias à praia - continuo detestando praia, mas finjo que gosto. Então, proponho esses mergulhos tardios pro meu esposo e filho e eles sempre concordam, daí vamos por uns caminhos enlamaçados, cruzando com bandos de gente seminua e cafona; porque nós, os jovens atuais, sabemos apreciar o rústico – e apesar de a praia estar relativamente vazia naquela tarde, um grupo de quatro homens velhos de quarenta e poucos anos com umas três ou quatro crianças de 10 ou 12 anos estacionaram um carro bem ao meu lado. Os adultos, meio bêbados, estavam cantarolando um trecho de Cocaine. Cocaine, sabe? Aquela música do Eric Clapton, pois bem, ficaram cantarolando e olhando diretamente pra mim que estava sentada em cima de um tecido esticado na areia, totalmente vestida num lugar onde pessoas seminuas desfilavam sem pudor algum. Achei a cena dos quatro homens cantando e olhando pra mim patética de tal gravidade, que optei por ignorar cretinamente, mesmo percebendo um interesse deles em interagir comigo.
Esses caras da praia não estavam sendo felizes, tampouco estavam fingindo ser como eu finjo. Nem são uns doidões como eu tentei ser, eles só são a corja da humanidade e devem estar hoje por aí, tomando caipiroscas e fumando um cigarro atrás do outro, tendo conversas acaloradas sobre política e Arnaldo Jabor depois vão colocar um rock velho com direito inclusive a guitarras imaginárias porque querem provar para os filhos que ainda tem aquela aura selvagem e jovem. Só que – eis a questão – eles não são nada disso, nem pais, nem selvagens, nem doidões, são apenas aquele tipo de gente que tentam a todo custo mostrar a juventude que ainda habita neles e com isso, só se mostram ainda mais velhos e patéticos. Eu com certeza não me permitiria ao vexame de tentar provar nada para o meu filho.
Também não gosto de ficar bêbada na frente dele. Nem fumar diante dele eu fumei, ainda fumava de vez em quando e parei de fumar até esporadicamente, não por causa do meu filho ou de ninguém, mas porque acho um cocô sonoro voz de fumante velho. Eu vejo essas quarentonas bronzeadas e loiras com um Marlboro na boca, falando com aquela voz pré câncer – e deus me livre.
Não, nunca me deixaria acabar assim: aos quarenta e poucos, bronzeada, com voz de fumante, cheia de procedimentos estéticos, a boca parecendo um Airbag de pica, indo à praia seminua e fazendo ensaio fotográfico sensual de lingerie na cama e publicando toda essa exposição ao máximo, tomando espumante e tentando resgatar a libido perdida por anos de sexo medíocre com o marido barrigudo que estaciona o carro - provavelmente uma caminhonete - na praia, tomando Red Label com os amigos que cantarolam Cocaine, enquanto eu estou numa roda de mulheres que trocam contatos de dermatologistas.
Não, eu definitivamente não me permito ficar assim. E não me poupo de tudo isso por saúde ou vergonha, mas por estética.
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