Ela fazia um curso, História da Arte, e fui convidado para dar umas aulas sobre Literatura. Ela, quase da mesma idade que eu, vinte e poucos anos, sentada bem na minha frente, olhando para mim. Que palhaçada. Odeio essa suposta sincronicidade, essas incríveis coincidências, todas umas belas sacanagens do destino comigo. Odeio tê-la desejado imediatamente quando a vi, ao lado de uma mulher mais bonita que ela. E, no fundo, somente tenho registro dela, de seu nariz, sua boca; seus olhos, alinhados aos meus. Seu rosto o tempo todo voltado direto para o meu, escutando perfeitamente cada palavra que eu dizia. Poderia ter reparado na outra, a mais bonita, também atenta à minha falação. Teria sido então um casinho passageiro, tenho certeza, daqueles que tive aos montes.
Penso nisso e isso acontece, vibrando as suas idênticas sensações. Os mesmos corpos das mulheres. Mesmas reentrâncias, mesmos púbis. A mesma memória. Só que cabelos brancos vêm surgindo pelo meu corpo, inclusive em lugares onde é definitivamente estúpido ter cabelos, e eles acabam me lembrando do tempo. Do tempo e, por consequência, dela. Vou ter que esperar uns dez minutos, até passar essa pequena vontade de me matar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário