sábado, 3 de dezembro de 2022

Sou porra nenhuma

Dançamos muitas músicas e ri de mim mesma. Eu. Eu mesma: corpo e cabeça cheia de cabelos. Meu cérebro estava empapado, do tamanho de uma batata. Quando fui ao banheiro e olhei-me no espelho, quase acreditei ser uma boa atriz. Era tudo mentira! Era batom, perfume e vestido que me levaram a um bar. A um beijo. O problema é que sou tola e carente, mas não me deixo enganar. Se eu pudesse pedir um só pedido seria: pára! Pára esse carro dentro da minha cabeça! Quero descer, estacionar, bater num poste. Sei que preciso aprender a ser menos. Menos dramática. Menos intensa. Menos exagerada. Alguém já desejou isso na vida: ser menos? Pois é. Estranho. Mas eu preciso. Nesse minuto, nesse segundo, por favor, me bloqueie o coração, me cale o pensamento, me dê uma droga forte para tranquilizar a alma. Porque eu preciso. E preciso muito. Preciso respirar, eu não dou conta do meu coração que quer muito. Preciso desatar o nó e sentir menos, sonhar menos, amar menos, sofrer menos ainda – confesso que eu nunca entendi essa máxima hamletiana de “ser ou não ser”. Eu queria que alguém me explicasse de verdade como “não ser”. Se eu soubesse como “não ser”, eu, pelo menos umas duas horas por dia, ficaria sem fazer nada. Tô aqui sem ser nada... nada... sou porra nenhuma –.

Todos nós somos assim, frágeis, em circunstâncias que fogem ao nosso controle. Foi a tal “ressalva” provocada à força, quando fui revisitada pela mesma velha, humana e implacável lembrança de abandono. Talvez eu não perceba, mas devo ter conseguido coisas boas daquele “relacionamento”. Ele era engraçado. Ele era esquisito. Ele dizia que eu era linda. E me fazia ter coragem. Ou melhor: fazia-me ver a coragem que há em mim. Quantas pessoas novas vindo. Tenho só um mundo pela frente. E olhe pra ele. Olhe o mundo! É tão pequeno diante de tudo que sinto. Sofrer dói. Dói e não é pouco. Mas faz um bem danado depois que passa. Descobri, ou melhor, aceitei. Mas agora, com sua licença, não dá mais pra ocupar o mesmo espaço. Meu tempo não se mede em relógios e a vida lá fora, me chama.

Dardos no peito.

Ninguém no mundo brincou de jogar dardos no próprio peito feito eu, como fiz minha vida inteira, desde o princípio. Sendo o princípio da minha vida ele, aquele homem branco, vampiro, magrelo, sentado lá, na minha frente. Nada nele indicava o que de fato seria ele. Um jogo de xadrez interminável. Com enormes pausas entre cada pequena jogada. Até suspender o rei. É, tenho um rei suspenso, em brasa, entre meus dedos. Desde que demos nosso primeiro beijo, início de tudo o mais. Até hoje, diante daquele momento, permaneço chocada. Fantasmagoricamente, de forma contínua, escutando o nome dele dentro de mim. Vocês não estão percebendo, mas a minha língua está se movendo, silenciosa e triste no interior da minha boca. E a Língua Portuguesa não aguenta mais a chateação dos meus versos repetidos, repetidos por ele, que tão docemente recebeu a minha língua em sua boca, dando-me um gosto que um milhão de palavras não poderiam traduzir. Porque não há verbo, ou sinal, ou lirismo, que consiga expressar o estranho que foi, o desconforto que foi, saber: esse beijo é o meu beijo. Não me dando chances de esquecê-lo. Pois ali, naquela tarde, no meio dos poucos carros pelo estacionamento, ao nos beijarmos tão livres, tive a experiência mais moderna na minha vida. Isso mesmo, moderna. Palavra confusa e ingrata, de significado impreciso, que passei a me permitir usar, envelhecendo. Para me referir àquele momento. Enfim, sou velha o suficiente, burra o suficiente e ridícula o suficiente para poder dizer: olha, beijar de repente ele, num estacionamento quase vazio, em dois mil e nove, foi, sem sombra de dúvida, a maior manifestação de modernidade que já ouvi falar.

Thank God

Te encontrei hoje e, olha, graças a deus por eu não ser dessas que imploram afeto. Até porque, hoje eu estava naqueles dias em que quero fumar um Vogue e mandar uns três tomarem no cu e você era um desses três. Porra, dei tudo pra você. Fui possessiva, ciumenta, instável, irrascível, apaixonada. Se a ideia de que o outro teve o que você também teve o incomoda, esqueça isso - se é preciso essa miséria de sentimento, então arranje outra - porque eu sempre acho que jamais vivi nada que se assemelhe remotamente à história que vivo. Você foi diferente do anterior, que foi diferente do anterior, até que eu perca a conta. E é possível que eu me perca porque não enumero em agendas e dou notas, guardo tudo na cabeça e, bem, eu não sou muito boa dela, principalmente se eu falar exclusivamente de sexo, você sabe, não me conheceu numa igreja. Ninguém na nossa situação pode ser ingênuo. Não dá pra manter-se puro a vida inteira porque a vida se encarrega de ensinar as suas durezas. Talvez só escapem dessa maldade os mongoloides e os dementes em geral. E estes não merecem, por incrível que pareça, pena alguma. O resto, o mundo inteiro, estará sempre sujeito a sofrer decepções. Este é o crescimento. Às duras penas o homem cresce. Uns com mais, outros com menos sorte. Mas parece claro que os que mais sofrem tornam-se melhores que os outros. Não no sentido de caráter ou até o sentido de caráter, mas principalmente no que se refere às suas reservas. Todo mundo carrega uma espécie de mala de equipamentos - sua bagagem de vida. O mais sofrido paga pelo excesso, mas tem um bônus de reservas à mão e - se não for burro ou tonto - vai saber sacar dali os instrumentos que o ajudarão a sobreviver, a vencer, ser o melhor. Deve-se não só sobreviver, mas sobreviver bem. Há o que passou pelo diabo e esqueceu sua mala em alguma estação de trem. Este é o idiota. Mas depois falo mais sobre isso. O que eu preciso te dizer é que estou em paz. Me dei conta de que não sou eu quem saí perdendo nessa história. Ponto pra mim e vamos rumo ao zero absoluto. Me esvaziar pra encher de novo. Sim, eu não acredito que o meu amor se transformou, ele esgotou e eu não continuaria levando assim por vários motivos e saiba ainda que muitos desses motivos não são nada nobres. Ainda que eu tivesse a certeza de tudo e confirmasse sempre, não daria certo, pois você sempre foi desconfiado e deve achar que eu uso o meu dom com as palavras e os meus problemas emocionais pra te comover. Por isso encerro o assunto.

A História da Arte

Ela fazia um curso, História da Arte, e fui convidado para dar umas aulas sobre Literatura. Ela, quase da mesma idade que eu, vinte e poucos anos, sentada bem na minha frente, olhando para mim. Que palhaçada. Odeio essa suposta sincronicidade, essas incríveis coincidências, todas umas belas sacanagens do destino comigo. Odeio tê-la desejado imediatamente quando a vi, ao lado de uma mulher mais bonita que ela. E, no fundo, somente tenho registro dela, de seu nariz, sua boca; seus olhos, alinhados aos meus. Seu rosto o tempo todo voltado direto para o meu, escutando perfeitamente cada palavra que eu dizia. Poderia ter reparado na outra, a mais bonita, também atenta à minha falação. Teria sido então um casinho passageiro, tenho certeza, daqueles que tive aos montes.

Penso nisso e isso acontece, vibrando as suas idênticas sensações. Os mesmos corpos das mulheres. Mesmas reentrâncias, mesmos púbis. A mesma memória. Só que cabelos brancos vêm surgindo pelo meu corpo, inclusive em lugares onde é definitivamente estúpido ter cabelos, e eles acabam me lembrando do tempo. Do tempo e, por consequência, dela. Vou ter que esperar uns dez minutos, até passar essa pequena vontade de me matar.

É preciso uma história

Eu estou morrendo por auto-asfixia, ao sufocar essa história toda dentro de mim. Já que ninguém sabe quem eu sou. Eu sou uma falsa à paisana, uma embalagem enganosa, corroendo-me com os segredos ácidos que guardo.
Vou justificar a urgência em dormir: procuro sonhar pra livrar meu cérebro da química dele. Imagino-o bem, e isso me mata. A raiva, o apego, a ignorância. Um cigarro que se fuma com vontade.
Sexo. Terror. Mais sexo e terror . É preciso uma história. Você quer uma história, não quer? Eu lhe dou uma meu, amor. Eu sou uma má garota. Bad bad girl. Falam de mim pelas minhas costas. Falam de mim na minha frente. Mas o que eu preciso é de um bom corpo de jurados.
Com o juri certo, serei sempre absolvida.

O cabelo

As reações ao meu corte de cabelo me deixaram numa delicadeza de cristal. Fina, prestes a rachar. Os meninos não gostaram, minha diarista pensou antes de responder e minha filha tentou aliviar, dizendo que rejuvenesci. Ah, e meu marido foi embora. Eu sei, parece piada. Parece um acontecimento de filme francês, quando cada sutil ação revela-se um detonador de grandes tragédias. Nenhuma filigrana é menosprezada, pois sào ranhuras simbólicas que de repente podem quebrar toda a crsitaleira. Metáfora meio cafona, feito cristal, feito filme francês, que sou eu. É, eu. Eu sou a pior metáfora de todas. Eu cortei o cabelo e o meu marido foi embora. Simplesmente disse: "Não gostei". "Você estragou o cabelo". "Você era linda". Eu disse que eu não era apenas um cabelo. Ele disse que o meu cabelo era importante para ele. Eu disse que ele era um babaca , então. Ele disse que não me amava mais e foi embora. Isso foi na terça, no domingo ele ligou e, em mais uma virada digna de Godard, avisou que estava na casa dele. Que casa? "A minha outra casa, onde serei mais feliz neste momento". Juro, foi o que ele disse. E eu: "Não estou entendendo". E ele: "Eu tenho uma outra mulher". "Hã?" "É isso, eu tenho outra casa ja faz cinco anos. Estava aguardando a oportunidade de te contar". Dá para acreditar? Assim, na maior cara de pau. Xinguei de tudo quanto é nome e, antes de desligar o telefone, disse: "Pois eu tentei matar minha mãe!" Ele ligou outra vez. "Não entendi o que você disse, mas quero que você saiba que eu não te deixarei na mão, muito menos meus filhos. Só não voltarei mais, porque viver com você está insuportável." Insuportável, dá para crer? Eu não presto para nada. Até o meu marido, que eu achava que me amava, queria apenas meu cabelo. Teve filhos com esse cabelo. E eu nem sabia que meu cabelo era tão bonito assim.

Ano passado eu fui à praia.

 Era início dos anos 2010, e não tinha muito jeito: você se tornava um babaca ou um doidão. 
Diferente dos anos 1960, em que as drogas serviram de ponte para ideologias, e dos 1970, quando se drogar era a maneira de participar daquela cafonice, ser doidão nos 2010 não significava realmente nada.

Ninguém tomava coisas para ficar “curtindo um som”, nem para ter sacações, nem para fazer coreografias em boates espelhadas, nem para entender a mensagem subliminar do rock progressivo. As substâncias todas e muitas, consumidas naquela época escaparam dos contextos sociológicos.

Precisava sobreviver? Sim, mas isso é desculpa que vale para tudo. Sendo que não estou me desculpando. Então, 2010, babaca ou doidão, ocorria muito de os babacas serem doidões e de os doidões serem babacas até hoje não existe muito meio termo pra tudo isso.

Pra ser ilustrativa, ano passado fui à praia e vi uma coisa que finjo que não é ridícula: meu marido cruzou com um conhecido na praia e estalou, em dueto com o sujeito, um tapinha no ar. Sabe como?Você conhece esse cumprimento “jovem”? Provavelmente, não, isso não é coisa, creio, muito recente. Na academia de ginástica que eu vou todos os caras fazem assim. E os “caras” normalmente são homens mais velhos, homens com mais de quarenta anos já podem ser considerados velhos, certo? Eu acho e não é porque eu estou caminhando para os 40 que vou dizer que me considero jovem, se bem que, jovem deve ser até no máximo 35 e ponto final, mesmo que todo mundo hoje em dia se comporte feito adolescente. Outra coisa que me chamou atenção nessa mesma viagem de férias à praia - continuo detestando praia, mas finjo que gosto. Então, proponho esses mergulhos tardios pro meu esposo e filho e eles sempre concordam, daí vamos por uns caminhos enlamaçados, cruzando com bandos de gente seminua e cafona; porque nós, os jovens atuais, sabemos apreciar o rústico – e apesar de a praia estar relativamente vazia naquela tarde, um grupo de quatro homens velhos de quarenta e poucos anos com umas três ou quatro crianças de 10 ou 12 anos estacionaram um carro bem ao meu lado. Os adultos, meio bêbados, estavam cantarolando um trecho de Cocaine. Cocaine, sabe? Aquela música do Eric Clapton, pois bem, ficaram cantarolando e olhando diretamente pra mim que estava sentada em cima de um tecido esticado na areia, totalmente vestida num lugar onde pessoas seminuas desfilavam sem pudor algum. Achei a cena dos quatro homens cantando e olhando pra mim patética de tal gravidade, que optei por ignorar cretinamente, mesmo percebendo um interesse deles em interagir comigo.

Esses caras da praia não estavam sendo felizes, tampouco estavam fingindo ser como eu finjo. Nem são uns doidões como eu tentei ser, eles só são a corja da humanidade e devem estar hoje por aí, tomando caipiroscas e fumando um cigarro atrás do outro, tendo conversas acaloradas sobre política e Arnaldo Jabor depois vão colocar um rock velho com direito inclusive a guitarras imaginárias porque querem provar para os filhos que ainda tem aquela aura selvagem e jovem. Só que – eis a questão – eles não são nada disso, nem pais, nem selvagens, nem doidões, são apenas aquele tipo de gente que tentam a todo custo mostrar a juventude que ainda habita neles e com isso, só se mostram ainda mais velhos e patéticos. Eu com certeza não me permitiria ao vexame de tentar provar nada para o meu filho. 

Também não gosto de ficar bêbada na frente dele. Nem fumar diante dele eu fumei, ainda fumava de vez em quando e parei de fumar até esporadicamente, não por causa do meu filho ou de ninguém, mas porque acho um cocô sonoro voz de fumante velho. Eu vejo essas quarentonas bronzeadas e loiras com um Marlboro na boca, falando com aquela voz pré câncer – e deus me livre. 

Não, nunca me deixaria acabar assim: aos quarenta e poucos, bronzeada, com voz de fumante, cheia de procedimentos estéticos, a boca parecendo um Airbag de pica, indo à praia seminua e fazendo ensaio fotográfico sensual de lingerie na cama e publicando toda essa exposição ao máximo, tomando espumante e tentando resgatar a libido perdida por anos de sexo medíocre com o marido barrigudo que estaciona o carro - provavelmente uma caminhonete - na praia, tomando Red Label com os amigos que cantarolam Cocaine, enquanto eu estou numa roda de mulheres que trocam contatos de dermatologistas.

Não, eu definitivamente não me permito ficar assim. E não me poupo de tudo isso por saúde ou vergonha, mas por estética.

Lembranças musicais

Lembranças musicais são fundamentais para o entendimento das épocas. Já que não sei bem o que descrever, para me situar no tempo. Na verdade, até sei, mas uma história é uma história. Precisa ser entendida como um todo, mas apreciada por partes. Meu maior objetivo é esse: fazer-me entendida e apreciada, entende? Um enorme desafio, já que nunca, em toda a minha existência, eu me senti levemente tocada pela compreensão alheia. É, tornei-me uma fingida completa, o tempo todo sendo aquilo que não sou, é fácil pra mim. Essa semana, por exemplo, eu tenho fingido que sou aquela que acha legal que o marido conserte os eternos problemas da casa. Ora, eu não acho nem um pouco legal que um homem adulto passe o dia inteiro eufórico porque está conseguindo que a cisterna volte a funcionar. Nem sei o que é cisterna – como pode ter alguma importância uma coisa que nem sei o que é? Então, lógico, eu finjo. E finjo perfeitamente, porque pratico desde criança. Quando fingia que era maluca, por não ser genuinamente esquisita, tomando vidros de xarope com Optalidon. Bom, a fria-miserável-desgraçada que vos fala foi, ontem, ao dentista. Ainda não disse – ou disse? – que, hoje em dia, dou meu testemunho antidrogas para quem quiser ouvir. Já faz tempo, inclusive, que nem um analgésico eu tomo. Se já comentei essa novidade por aqui ou se alguém contou, que fique claro que parei assim, com tudo, porque fico absolutamente nervosa quando me sinto fora de mim. Etiquetas das roupas se tornam pinicantes demais pro meu corpo, minha existência se eleva a níveis insuportáveis, minhas pernas me incomodam demais, sabe? Não, ninguém deve saber. E tem um outro aspecto incrível nessa minha permanência em mim mesma: eu passei a gostar de estar onde estou. Consigo ser clara? Desconfio que não. Mas a clareza não é tão importante – o que me interessa é que acreditem que agora eu quero, mais do que tudo na vida, estar no mesmo lugar das minhas sensações, mesmo as mais tenebrosas. Não gostaria de perder um só detalhe nessa nova chance que tenho, de reviver uma realidade descrevendo-a sem disfarces. Procuro, então, demonstrar todos os mecanismos que me levaram a reagir como reagi, e a fazer o que fiz. Precisando reabrir o meu universo mais secreto, aquele que escondemos o melhor possível em nossas profundezas, por ser onde guardamos gravados os instantes exatos dos nossos sentimentos mais vis e escrotos. Quero averiguar a minha inveja, olhar de perto o meu rancor, cheirar as minhas feridas. Sentir de novo as cicatrizes de um masoquismo de uma vida inteira. Seja adorando outra vez aqueles que não me quiseram, ou rastejando em agradecimento àqueles que querem comer meu cu. As pessoas passam a vida inteira tentando abafar essa existência interior, não eu: eu vivo ali, naquele recinto, observando as minhas taras, crueldades e egoísmos. Explicando-os para fora. Então preciso de todos os sentidos alertas. Não cuspi no prato que cheirei, acho que as drogas lisérgicas, fizeram um excelente serviço em mim. A maioria dos insights que eu tive, utilizando-os para sobreviver à imbecilidade geral, veio dos alucinógenos, não nego. Continuo uma adicta, só que atuo em outras áreas. Pois então, ontem, fui ao dentista, e usei, pela primeira vez aquele gás hilariante. Olha esses caras são foda mesmo. Que invenção! Nunca senti coisa igual, sério, uma loucura, eu delirei! E dizem que nem mal faz pra saúde. Não é sensacional? Se eu tivesse compaixão por alguém, daria um jeito de colocar um tubo junto, no o leito de morte, mas caguei, ou melhor, cago pra quem está morrendo. Preciso é iniciar uma série de correções estéticas nos meus perfeitos dentes. O que não lembrava, no inicio dessa historia, é que toda a vez que eu delirava com o gás, pensava na letra de The Start Of Something.

Hipocrisia da negação sistemática.

Não aguento essa hipocrisia da negação sistemática da inveja. Por que as pessoas são assim? Por que não admitem que mentem, que fingem e às vezes morrem de raiva da felicidade alheia? Eu fujo de gente que afirma não se irritar com nada. São sem dúvida nenhuma, os mais perigosos. Porque não pensam naquilo que sentem e, sem pensar, agem. São como crianças, acreditam que um pensamento errado já é algo criminoso, então abafam suas mentes numa vaga letargia disfarçada de cuca fresca. Dizem-se calmos. Na verdade, estão atrapalhando o mundo e a natureza com seus comportamentos antinaturais. Não existe o bem-estar completo, e isso definiu o ser humano. Gente que não se incomoda com nada é o atraso da humanidade. Assim como gente que diz não sentir ciúmes é o viés do amor. Prefiro arder, Prefiro sentir a ser. Sinto inveja, mas não sou invejosa. Sei que as sensações antecedem as ações, e é a ação que vale. Sendo essa consciência a única forma de nos frear antes do abuso. É o desejo de dar uma surra num filho que impede a surra. Sente-se vontade de estrangular um bebê que chora a noite toda, e imaginar essa hipótese é que nos faz ver que um filho é a coisa mais importante da vida. Eu morreria de inveja de ver uma filha sair linda pra se encontrar com os amigos; mas não infernizaria a vida dela, como minha mãe fez comigo. Irei, isto sim, melhorar, entendo o que sinto, porque eu não sou o que sinto.

O Documentário

Sentou-se no sofá, assistindo um documentário qualquer com o volume tão baixo que ela só conseguia captar uns lapsos de sons, sem conseguir escutar algo que prestasse. Abriu a bolsa e tirou um cigarro, terminou este e tirou mais um. Fumou vários, um atrás do outro e foi quando ela passou a pensar com quem poderia ter um caso. Um caso rápido, só pra levantar a moral e não enfartar de virgem – sim, ela está há exatos dois anos sem trepar, sente-se praticamente uma virgem –, mães solteiras devem se preocupar somente com filhos e problemas de trabalho. Libido é coisa pra se manter guardada, estagnada, então foi o que ela fez: trancou a sua sexualidade numa espécie de masmorra interna. Além de profunda, coberta por alguma gosma borbulhante de asco protetor, subproduto da gravidez, para repelir qualquer tentativa de resgate. Sua cabeça quase desmanchando, diante de uma longa reportagem sobre a Bíblia. Até que ela percebe que não está dando a menor importância ao que está apenas vendo, já que nada escuta e sai de fininho, para fumar no banheiro.
Faz sempre isso, em todo tempinho que sobra, fumar na sala foi algo fora do comum, já que se importa muito com a possibilidade de seu filho perceber o mau hábito da mãe. Fuma na frente do espelho. Impavidamente assombrada com a imagem que tem.  Pois é visível que esse hábito lhe abre os poros e que sua solidão é imensa, é uma condição inerente à sua nova opção de vida. Assim, a última vez que transou foi quando engravidou, mais de dois anos atrás, lembra refazendo as contas. E a ultima masturbação foi antes ainda, já que a ideia de parar tudo pra ficar pensando sacanagem e esfregando o clitóris lhe parece simplesmente ridícula. Sente-se, portanto, incapaz de sequer jantar com um homem – incapacidade que procura justificar de várias maneiras sensatas, nenhuma convincente. Pois ninguém entende tão bela moça, livre, aos 26 anos, adepta da castidade. No entanto, para ela, nada lhe parece mais atraente do que um cigarro, um espelho e uma coca zero. No máximo, quando o filho está dormindo, tira a roupa para poder ver seu corpo.

- Reaja, corpo, reaja!

Não quer um envolvimento definitivo. Absolutamente nada que possa descambar pra uma relação duradoura. Quer dar cinco vezes somente. Com sorte, na segunda vai ser bom e na quinta ela vai explodir saciada, tudo resultando numa pele ótima. Num corpo um pouco menos distante da morte. Ok, não quer pensar nisso, sempre evitou o tato e a cerimônia precipitadamente indagativa, ainda em luta contra a timidez. Quando era mais nova, resolveu esconder essa sua fragilidade atrás de uma postura levemente masculina. Não deu certo, claro. Tenta às vezes outra estratégia: fazer-se de maluca. É mais bem sucedida nesse disfarce, tanto que teve um filho.

Esses modernos medicamentos.

Virou-a de lado, de frente para o espelho. Dessa vez, gozando rápido e fundo, lá dentro dela. Depois ela se masturbou.
Como narradora, acho extremamente desagradável falar de sexo. A bem da verdade, acho desagradável esse assunto em si, em qualquer idade, e se me atenho a ele é porque, a essa altura do campeonato, censurar detalhes como esses, detalhes que traduzem a importância de qualquer história, seria uma imensa tolice. Ser-me-ia mais que desagradável, me sentiria como venho me sentindo a vida inteira: maculando o meu amor como uma mentirosa comum. Principalmente agora, quando isso que escrevo já me rendeu tantas páginas, colocando meu fôlego confessional por um triz. Levando-me necessariamente ao universo dos piores desconfortos, já que infelizmente, meu deus, infelizmente, não me resta alternativa além de falar de outros, e muitos, para, mais uma vez, conseguir estancar minha própria angústia, que está até menor do que era de se esperar, graças aos modernos medicamentos com os quais ando me tratando. Dessa química que prolifera em mim e, pouco a pouco, degenera meu raciocínio. Chamada velhice. Sim, tornei-me uma debiloide muito cedo, com menos de 20 anos. Mas só mais recentemente atingi o ápice da debiloidice. Porque, veja, uma mulher que precisa de comprimidos para controlar seus ânimos é tão somente uma debilitada mental. Senão, vejamos: o tempo passando, a vida construindo sua teia de monotonia ao meu redor, e eu continuamente querendo estar num lugar diferente do que eu estava. Hoje mesmo, parece claro, que não seria aqui, onde estou, onde gostaria de estar. Pura debiloidice, certo? Por que não estou lá então? Falta-me o quê? Faltam-me remédios, disseram-me, por isso a ciência tem me servido diariamente um belo coquetel de dispersão. Coloquem-me numa cadeira de praia, coberta por um guarda-sol, que lá continuarei. Estou sob controle. Não vou chorar por não estar na neve.

Ímãs Opostos

Ontem eu estava observando o Dimitri dormir e me bateu uma vontade muito grande de saber como os espermatozoides chegam até o óvulo. Bem, concluí que basta olhar para uma janela num dia de chuva. Veja qual gota chega primeiro ao batente. Não existe acaso numa fecundação. Um milhão de fatores equacionam o resultado. Um milhão de obstáculos fazem a beleza uma raridade. Um milhão de motivos clamam por uma germinação. Então a gota tem que ser a simplesmente perfeita. Eu não preciso de você. Nem você de mim, essa é a verdade. Isso parece o fim do mundo porque geralmente não há nada a ser feito se não for, a princípio, necessário. Por isso essa ansiedade da ausência. Essa abstração. Estamos com medo de perder o que já foi perdido. E a perda é aliviante, mas ainda nem sabemos disso. Estamos livres. Livres para nos comprometer, se quisermos, mas sem nenhuma obrigação, se essa não for a nossa escolha. Deixa eu te dizer uma coisa. A verdade é que, enquanto você estiver assim, nessa interminável agonia, esperando saber de coisas que você nunca vai saber, vai deixar passar várias possibilidades interessantes ao seu redor. Claro, ninguém se compara a quem você aguarda, mas quem você aguarda não está disponível no momento. Poderá, inclusive, nunca estar, apesar de tudo o que já foi dito. Pessoas que somem não são confiáveis. Você acha que entendeu, mas não, eu te conheço. Eu não sei o que faço afetivamente; porque, afetivamente, eu sou uma ameba; e vou te fazer sofrer, por isso eu acho que te amar é muito confuso, porque agora nós trazemos em cada mente, ímãs opostos. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

True Colors

Ela só percebeu que havia esquecido de anotar o número do telefone num lugar mais seguro quando já tinha lavado metade do número da palma da mão. Dormiu tentando reconstituir aquela sequência em sua mente. Acordou e recorreu ao serviço 102, aguarde um momento, a informação não consta. Pegou o carro e voltou ao lugar. Agora, um arbusto esquálido tapa-lhe exatamente a visão da faixa, enquanto passa em frente à casa. Procura um estacionamento, não encontra. Dá três voltas no quarteirão atrás de uma vaga. Volta pra casa puta da vida, larga o carro aberto na garagem. Esperando o elevador chegar, pensa na possibilidade de deixar tudo aquilo pra lá. Pensa e despensa. Não pode deixar pra lá uma casa tão peculiar e convidativa. Peculiar, no ar sombrio dos seus muros encardidos e nas amplas janelas. Convidativa, nas imagens que a peculiaridade traz a ela: piano, barra, espelho, barra. Repetições. Movimentos dolorosos. Beleza. Suavidade. Balé. Foi até lá a pé. E numa rapidez juvenil, de quem corre para não perder a vez. Talvez na fila para um show dos Smiths. Era ela atrás de um sonho do passado.

Mas a escola está fechada. Num papel plastificado, preso no portão, descobre que a secretaria só funciona após as 14 horas. Fica transtornada. Subitamente é tomada por uma tristeza de excepcionais tons negativos. Mulheres são assim, depressivas. Pois transformam simples vontades em necessidades vitais e, diante de uma transitória impossibilidade, distorcem as sensações até torná-las insuportáveis. Uma espécie de TPM zoadical, algo meio físico, meio metafísico, energético, quem sabe, bioquímico, com certeza, que lhes ataca as ideias, enlouquecendo-as. E, por uns segundos, ela pensa seriamente em se jogar em frente a uma Kombi que está vindo. Uma Kombi de frete. Sequer o convite de ir a uma loja e comprar algo que lhe agrade muito, aplacaria aquela decepção. A Kombi passa. Ela, com os olhos marejados de lágrimas confusas, encosta num carro estacionado. Saca o telefone celular da bolsa. Aperta os botões sem convicção de que está acertando o número. Dá na secretária eletrônica. Ela aguarda, calmamente, o bip, para deixar seu recado histérico.



- Sou eu. Me liga, por favor. Estou no celular. Tchau



Como de hábito, instantâneamente arrepende-se do que fez. Pensa no quão patética acabara de ser, revelando sua suscetibilidade a um desconhecido. O seu analista. Durante as consultas, mostra-se tão forte – ou no mínimo engraçada em sua fragilidade. Ligar do meio da rua, pedindo ajuda, pelo celular; e ainda dizer-se no celular. Como se ela estivesse lá dentro dele. Uma mulherzinha esganiçando, malocada num motorola. Desatinei – conclui. Você desatinou... – cantarola, ainda recostada no carro. Tirou partido de mim, abusou. Tirou partido de mim abusou. Tirou partido de mim, abusou. E agora? O que fazer? Para onde ir? É manhã ainda, não pode passar horas parada na frente dessa escola. Não pode voltar pra casa e, muito provavelmente, desistir de tudo. De estudar balé. De experimentar novamente aquela sensação de não ser boa bailarina. Pois ela nunca dançou realmente bem. Dançou bem. Meia-bomba. Esforçou-se. Mas não possuía o talento. Poderia, sim, tornar-se uma professora, ou uma dançarina de fundo de uma companhia também meia-bomba. Quando teve a consciência deste fato, culpou todos os cursos que fizera até então, xingou os pais, e partiu para londres. Crente de conseguir alguma coisa na Royal Academy of London. Never. Completa tolice enganar-se daquela forma. Então encarou o problema de frente. Corajosa. Firme. Ate auto-irônica: eu não sei dançar, tanto quanto eu não sei cozinhar, tanto quanto eu não sei costurar, tanto quanto eu não sei escrever, ou cantar, tocar algum instrumento, pintar, ser mãe, ser filha ou ser a puta que o pariu e foda-se também. Guardou seu sonho. Mascarando o desapontamento numa cara de quem não está nem aí pra nada.

Neste preciso momento, está parada diante de um novo fracasso. E não é mais uma menina. Não é mais uma menina. Não é mais uma menina. Nunca quis ser uma menina. Lembra-se disso. Nunca quis ser uma menina que tem que dar explicações aos outros. E mesmo que as dê, não precisava dar, caso não quisesse. Poderia sumir. Fugir dali para Piricota do Mato Fundo. Esquecer o balé. Esquecer de tudo. Está tendo uma crise de nervos encostada num Passat velho cor verde-pampa. Pelo menos não é uma Brasília. Repara nas duas outras casas, vizinhas à escola. Numa tem uma placa na fachada, é incrível tratar-se de uma casa de repouso. Poderia entrar e tirar uma sonequinha até as duas? Na outra, do outro lado tem uma bandeira. Ela fica intrigada. Consulado polonês?! Será que poderia pedir asilo, e partir para este país sem eira nem beira, com um povo com fama de esquisito? Aproxima-se dessa casa. É bem maior que a da escola. Igualmente sombria. Sente-se tentada a abrir o portão e entrar; só para dar uma olhadinha. E se tiverem cães de guarda, pastores alemães poloneses? Fica na ponta dos pés, diante daquele mistério arquitetônico, para observar-lhe o interior. Que parece vazio. Aí, alguém aparece, um funcionário, e ela morre de medo de levar um esporro. Apesar de não estar fazendo nada de errado. Culpa kafkiana. Daquelas sem motivo. O homem também está ali somente para abrir o portão do lado, onde fica a garagem. E ela vê pela primeira vez o cônsul. Ele está sentado no banco detrás de um carro japonês. Na frente vai o motorista. Ela olha para o passageiro e encontra seus olhos nos dele. Estremece. Encabula. Tudo muito rápido. Tem tempo apenas para pensar em como é estranho um cônsul polonês ter um carro japonês. Injustiça com a pátria sofrida, a Polônia – de péssimos antiquados carros. Quer novamente chorar. Está num mau dia.

Vai para casa. Nem mais se lembra o que aguardava ali na sala. Sabe, porém, que é melhor ficar onde está. Se for lá pra cima, poderá sucumbir à preguiça e dormir. Não quer dormir. Não pode. Está aguardando uma coisa. Que agora lembra o que é, um telefonema. Aguarda um telefonema, portanto não pode dormir. Vidinha estúpida. Sem espaço para rebeldias ou mera contravenção. Desejava do fundo do coração ser umajovem bem doida dessas que sempre se vê por aí. Põe uma música. Egberto Gismonti. Os Tropicálias. Procura a daquele sujeito que fez só uma música que presta, mas que presta tanto que é suficiente. Como é o nome dele mesmo? Eu uso óculos escuros para minhas lágrimas esconder e quando você vem para meu lado, ai, as lágrimas começam a correr. Eu sinto aquela grande confusão. No meu corpo, sangue não corre não. Corre fogo e lava de vulcão. Lá. Láááá. Humm... Das meninas e meninos que eu encontro. Hummmm na na na na nammm... . Não, essa não é a mesma música que a do sangue corre não... Que importa? Eu fiz essa canção falando. Ta ram ram... Ram ram ramm ela vai passando... Merda... Merda! Merda! Merda! Pra quê que eu fui ligar pro meu analista? Ela olha o telefone. Ansiosa. Trêmula. Já passou pela fase do descaso. Já passou por achar que tudo bem, não estou nem aí, o idiota do meu terapeuta não me dá resposta porque ele deve ter percebido, no meu tom de voz, que não era nada importante. E ele está certo. É assim mesmo. É assim que um bom terapeuta deve fazer com um paciente como eu. Eu que, é claro, sou uma pessoa normal, não um desses casos progressivos de loucura. Isso, ele não ligou porque está ocupado. Normalíssimo. Antes, também já pensou: no quanto você, é um pulha, cretino. Que precisa deste joguinho ridículo, tolo, infantil, para provar que eu não sou tão auto-suficiente quanto eu demonstro ser. Mas eu sou! Eu não preciso de você! Ouviu bem? Não preciso! Seu gordinho de merda!... O terapeuta gordinho. É isso que você é. Não adianta ter passado vinte dias num SPA, enquanto todos os seus pacientes enlouqueciam aqui. Não adianta ter emagrecido vinte quilos. Você é o gordinho. Só que agora magro, mas ainda flácido. Depois, poucos minutos atrás, ela pegou o gato no colo, para distraí-la de seus pensamentos sobre o quanto ela precisa falar com o analista. E neste instante, ela acaba de cometer o segundo erro do dia, o mesmo erro, igualzinho ao primeiro: ligou novamente e deixou recado.

- Oi. Sou eu. Novamente. Não estou mais no celular. Estou no telefone de casa.

Que merda federal! Por quê que eu fiz isso? Merda! Hora do terceiro erro:

- Alô, é o seguinte: não precisa mais me ligar de volta. Porque eu não vou estar. Até amanhã.



Quero morrer – este é o estado em que se encontra agora. Jovem moça, sentada no seu sofá, querendo morrer. Enquanto alisa o gato Bruce. Até que é bonitinha, mas tem no rosto uma expressão triste-feia, como convém a quem quer morrer. Por que você esta fazendo esta maldade comigo?... Eu estou tão cansada... Mas tenho que sair, não posso mais esperar por você. Como se você fosse meu pai. Ou meu amante. Ou o ser humano mais importante deste mundo. Eu quero deixar claro que eu realmente não preciso de você. Merda, por quê que eu estou assim, tão mal? Não pode ser só por causa de um médico de merda que não me liga de volta. Que besteira... Por que é então, me diga? Suspira. Levanta-se da maneira que está, amarrotada e abatida, anda para a porta de saída. O gato fica. Ela pára e olha na direção dele, mas não para ele – está tentando se lembrar de algo que desconfia esquecer. Ah, sim. Tira o telefone celular da bolsa, desliga o aparelho e joga no sofá. Não estou mais em casa, nem no celular. Ninguém sabe para onde eu fui.


- Tchau, Bruce. Comporte-se.



Já na rua, pega o primeiro táxi que vê na sua frente. Sabe que o caminho de carro é um pouco mais longo do que o feito a pé e ainda está cedo. Com um pouco de sorte, talvez pegue um engarrafamento, uma trombada, um conserto bem no meio da rua, um caminhão de lixo, um folgado em fila dupla. E os ponteiros pularão de minuto em minuto eliminando aquele incômodo. Inclusive, está se sentindo muito bem ali, num lugar onde ninguém imagina onde estivesse: um Apollo branco. Gostaria de prolongar ao máximo aquele período de exílio. Ficar escondidinha, refugiada. Por onde ela anda? Ih, ninguém sabe, o médico vai ligar e uma das empregadas vai responder: a patroa anda sumida. Então ele vai tentar o celular; e dar na caixa postal, eficiente e fria. Oi, deixe seu recado após o bip, obrigada. Ri. Está cercada de placas, muito bem sinalizada, para conduzir qualquer interessado ao seu presente destino. Tem serviçais adestrados para dar o número do celular, mesmo se ninguém pedir. Quando a casa fica vazia, há a secretária eletrônica aguardando mensagens urgentes, e também oferecendo o número do celular. E há ainda a caixa postal digital do celular, que não oferece outro número, mas que tem memória para cinco mensagens. Ela parece que é uma importante e ocupadíssima profissional – doutora neurocirurgiã. Tem tudo engatilhado para que seja encontrada. Mas na maioria das vezes não há ligações, nem recados, não há pedidos de retorno. Ela é uma mulher rastreada por ninguém. Nem mesmo sua mãe necessita saber por onde a filha anda, sabe que em algum lugar ela estará sem fazer nada demais, de notável, ou imoral. Tanto faz, esta não é a questão. A questão é que ela está ocupando seu dia. Talvez até esteja no colégio. Claro, há os compromissos certos, os com hora marcada, a terapia, a yoga. Atividades que para serem cumpridas pedem apontamento. Resumindo: ela está por aí, levando como pode seus dias de tédio absoluto. E se eu fumasse maconha? Pensa nessa possibilidade, olhando as pessoas que passam na calçada, oculta atrás do vidro do Apollo branco. Seria bom. Seria um outro fazer as coisas de sempre. É. Boa ideia. O táxi vai se aproximando da casa amarela; passa por ela, e só é lembrado de parar diante do consulado polonês. Quanto foi? Aqui. Pode ficar com o troco. Eu sei, mas pode ficar. De nada. Tchau.

Enquanto aproxima-se sabe que não quer maconha. Tudo o que eu queria é que alguém cantasse True Colors pra mim. Que alguém descobrisse onde estou e cantasse pra mim. Eu não repararia nem no inglês. Podia ser num inglês ruim. Ela está voltando para casa, a pé. Satisfeita por ter conseguido marcar suas aulas de dança. Mas muito cansada. Tudo o que ela queria, além de alguém cantando o sucesso de Cindy Lauper no seu ouvido, era dar um beijo na boca sem que isso tivesse que anteceder ao ato sexual, que induzir ao coito, entendeu? Em sua vida, faz tempo, beijo significa somente isso: uma proposta o início do sexo. Não é mais afeto. Não é mais um agarro, apenas. Beijo na boca não é mais beijo na boca. Grande engano, pois boca não tem sexo. Sim, pau é pau, boceta é boceta, mas boca não é nada. Beijo na boca não deve ser sobrecarregado de grandes motivações. Beijo na boca, neste momento, enquanto ela atravessa as rua sem olhar para os lados, é alguém dizendo: “You with the sad eyes / Don’t be discouraged / Oh, I realize / It’s hard to take courage / In a world makes you crazy / And you’ve taken all you can bear / You call me up / Because you know I’ll be there / So don’t be afraid to let them show / Your true colors / True colors are beautiful like a rainbow.”

Ninguém aguenta a realidade.

Anos fodidos. Seria um trocadilho, se eu não os detestasse. Depois de “Anos Dourados” e “Anos Rebeldes”, vem aí, dãããããã, “Anos Fodidos”. Não ria, pois não é engraçado. Não é porque optei por uma estrutura mais divertida que serei engraçadinha. Apenas rolou de ser assim: foram anos em que, fodidamente, acreditei que estar drogada facilitava o fato de eu ser estranha. Porque você fuma um baseado e as coisas parecem mais leves. O problema é que, então, talvez seja melhor tomar logo um ácido. Você já é, ao natural, tão absurda e sem sentido aos olhos dos outros, que é melhor ficar chapada de uma vez, falando enrolado. Com os olhos vermelhos emoldurando pupilas dilatadas. Esse é o visual que combinará com você, porque você é uma freak, e a qualquer instante morrerá com seus excessos. Hoje em dia, nem sonharia em tomar um ácido, ou fumar um baseado. E bebo, quando muito, um chope. Gozado, não é? Eu acho, acho engraçadíssimo que eu, logo eu, tenha me transformado nesta pessoa sóbria e dissimulada que sou. Acho mesmo. O que me tornei, juro, é a maior dificuldade de contar sobre a minha vida. Alguém que tinha uma forte fixação por junkies alemães. Quando li o Christiane F., fui tomada pela mais pura curiosidade mórbida. Curiosidade e medo – eis uma forte candidata a caso perdido. Afinal, sim, é terrível aquela situação; mas preferia mil vezes estar descacetada numa rua de Berlim, chupando picas azedas pelos becos, do que estar em Belém, assistindo ao Silvio Santos falando sobre seu carnê. Mil vezes ficar jogada na sarjeta de Kurfürstendamm do que passar feriadões em Salinas. Numa casinha mínima, muito mais longe da praia do que onde morávamos. Mas todos tínhamos que nos despencar para lá, e ficar felizes em dormir pelo chão, e ver televisão com fantasma, porque era férias e ia dar pra viajar. Se você não quer que a sua filha se torne uma Christiane F., desculpe, deve oferecer a ela melhores opções do que as que me ofereceram. Ninguém aguenta uma realidade tão intensamente medíocre quanto aquela.

Devo ser um tipo esquisito de pessoa

Não sou boa nisso. Para esse tipo de coisa. Você sabe, confessar... Assumir... Não posso dizer sinceramente o que me faz ser tão assim... Quantas reticências, não é, meu amor? Não sou boa para amar. Devo ser um tipo esquisito de pessoa. Um tipo que no cinema sempre mora em lugares frios. Em lugares mais esquisitos ainda. Gente que acorda quando ainda é escuro e se encapota e coloca botas com travas na sola. Daí vão para a frente da casa. Casa pequena. Numa rua vazia. E com uma pá retiram a neve ao redor das rodas.E com um limpador de vidro arrancam o gelo duro do pára-brisas. Entram no carro bufando - já tiveram tanto trabalho, tão cedo, que estão putos, embora impávidos, porque gente estranha que mora no frio deve estar sempre impávida - e o motor range e é forçado mais umas quatro vezes até funcionar. Se eu fosse representada, o meu emocional, a minha personalidade afetiva, assim seria o meu personagem. Um pouco fria, um pouco apática, mesmo que raivosa.Em total silêncio ou fazendo muito barulho. Mas sempre querendo estar só nessa vida de merda. Arrancando o gelo para poder andar.

Uma genética dramática

Nasci sob o signo da desaprovação, sabe-se lá porquê. Desde pequena, recordo bem disso, nada que partisse de mim agradava as pessoas. Veja bem, quando digo “pessoas” refiro-me a uma maioria cujo meu contato era obrigatório e não por escolha: professores, colegas de escola e depois os de trabalho, parentes que eu não escolhia encontrar todo final de semana, meus pais. Nunca um elogio foi feito, a coisa alguma; jamais um carinho ou palavra animadora, sequer um olhar afetuoso me lembro de ter recebido. Aliás, parecia que essas pessoas não podiam me olhar; sério, não tenho memória dos olhos apontando em minha direção, em momento algum - fora a desaprovação - eu passava por eles como um fantasma, um espectro desagradável que vez por outra e quando fazia algo, era notável sob forma de repreensão. E, conforme fui crescendo, esse abismo entre as pessoas parecia ir aumentando.

Em casa existia aquela mulher fria, dita minha mãe, toda “íntegra e caridosa”, absolutamente preconceituosa e, pior, orgulhosa da sua ignorância. Acho até que herdei essa frieza prática dela e nem isso a fez gostar um pouco de mim.

Chato, mas agora vou ter que dar uma parada. Estou meio enjoada. Essa parte do desamor me atinge o estômago e faltam poucas páginas para eu terminar de ler um livro que me comoveu muito. Parei de ler, agora há pouco, pois senti uma vontade danada de chorar, e não sou boa em abafar rompantes. Também não estou a fim de ficar soluçando em frente ao espelho do banheiro. Mais um hábito que cortei da minha lista. Parei de fumar assim, assistindo ao horror dessa ação no meu reflexo. Não pretendo parar de chorar, claro que não, chorar é saudável, eu sei e sou masoquista, não sei se já deixei isso claro aqui. Foi uma descoberta bem recente que fiz num outro livro que li e explicou o fato de eu ser tão grata ao outro, quando ele repara em mim. Fazendo com que eu aceite qualquer abuso, vindo desse “sujeito amoroso”, como um ato de afeto. É que quando me sinto amada, parece que, enfim, posso viver algum tipo de calma, em ser essa que sou. Alguém que já experimentou a mais cruel das rejeições: a de mãe e pai ao mesmo tempo. Então, no momento que esse “amante gentil”, incrivelmente sábio e bom, olha para mim e me aprova, é como se esses pais negligentes tomassem o corpo dele emprestado, voltando a existir naquele ser momentaneamente “perfeito”, a fazer coisas desagradáveis em mim. E, nisso, eu pudesse sentir o alívio do perdão.

Ora, não estou aqui para me justificar. Se conto isso, é por causa dessa rara qualidade que tenho: a generosidade da alma. Que me faz querer o compartilhar do entendimento. Não somente sobre mim, mas, se você for capaz de perceber, sobre todos nós. Os carentes, os loucos, os chatos, os cansativos. Todos nós somos assim, frágeis, em circunstâncias que fogem ao nosso controle. São as tais ressalvas. A maioria delas provocada à força, quando somos revisitados pela mesma velha, humana e implacável sensação de abandono. Mas voltando à questão: sou masoquista. Auto diagnóstico que dói, porque não gosto de diagnósticos. Já gostei, confesso, quando achava chique ser hipocondríaca. Atualmente, sinto-os como que uma capa de caderno cheio de postites. Essa mania, moderna que detesto de, talvez, precisar de referências para tudo. Marcamos nossos livros de arte, de capa dura, com anotações imaginárias para um dia podermos lembrar: oh, sim, essa cadeira é pré-alguma-coisa, ou pós-alguma coisa, ou da fase intermediária entre uma coisa e outra. Acho isso um saco. Notei essa tendência mais fortemente quando me tornei mãe. As mães querem ser mais cultas ou acham que são, por isso têm mais repertório de designações. E, você sabe, repertório é um troço perigoso nas mãos dos tolos. Um imbecil letrado é algo dantesco. Mil vezes os imbecis ignorantes, mil vezes os analfabetos. São os especialistas em coisa pronta que me oferecem os diagnósticos. As pessoas que conheço e conheci no meio de tanta desaprovação nesses anos todos, por exemplo, são sempre umas experts em ideias gerais. Sabem tudo que já foi dito sobre tudo que já foi pensado sobre os assuntos. Mas são incapazes de criar alguma nova verbalização que altere a anterior. Apenas designam todo mundo, e tudo que todo mundo faz, com algum nomezinho específico.

Voltando ao assunto, quando digo que parei o tal livro e quis chorar, foi porque cheguei num trecho que o autor transcreve, do Schopenhauer, que repetirei em seguida, com um certo constrangimento, pois não verifiquei a citação na fonte. Seria fácil, já que ele é, junto com Nietzsche, um dos meus preferidos; mas foi assim, por meio de um bom bestseller, que tive o azedume do primeiro contato, tão importante, por ser o que produz a identificação; e talvez, com o processo, a cura. Aí vai: “O peso do talento fez com que eu ficasse mais ansioso e desajeitado do que já sou por herança genética. A sensibilidade dos gênios faz com que sofram mais e sejam mais ansiosos. Estou convencido de que há uma ligação direta entre a ansiedade e a inteligência.”

Creia, eu sei que o termo gênio, aplicado a meu caso, não passa de um absoluto exagero. Eu mesma não vejo, em mim, nada de genial – e olha que eu tento. Mas não vou negar que tenho esse talento para o lado mais sensível, para as partes mais chatas da vida, e isso me deixa exposta a mais ataques emocionais que os outros. Sou completamente ansiosa. Mas sou também inteligente e, assim, faço da ansiedade uma motivação artística. Vindo a me tornar o que sou: uma artista da vida real. Uma espécie de atriz performática full time, o tempo inteiro atuando para o mundo exterior, só que secretamente uma cientista, pesquisando todas as reações à minha atuação. Fico espionando, e catalogando na minha cabeça, tudo, nos mínimos detalhes. Então, bem-vindas as minhas oscilações, pois serviram para alguma coisa. Bem-vindos os meus ataques, já que se tornaram texto. Não que eu não vá, com o tempo, querer aplacar os meus nervos. Não quero acabar a louca de pedra que previram, durante minha infância, nem a psicopata, que previram na adolescência, mas estou divagando muito e é isto o que me preocupa: receio que ainda haja algum perigo rondando a minha cabeça. São os meus inimigos invisíveis. A tal da herança genética, acho, manifestada sobretudo em meu perfil obsessivo. Que me põe diariamente em desarmonia.

O meu marido me acusa de às vezes ser chata, insuportavelmente chata. Porra, eu sou é sensível. Ele não sabe o quanto sou boa atriz, sendo agradável o resto do tempo. Ele não sabe que eu sou uma artista de tempo integral. Por isso, e só por isso, eu o perdoo por toda a sua grosseria e raiva desmedidas. Em dias como ontem, quando nada do que ele vociferou, enquanto brigávamos, chegou a me ferir pessoalmente. Sendo a única coisa que eu gostaria é que ele conseguisse, feito consegui, detectar em si próprio toda a chatice, a maluquice e o perigo, que ele costuma apontar nos outros. Eu sinto, e pressinto, e vejo coisas acontecendo 24 horas por dia. Grandes ações tomam forma ao meu redor, ao mesmo tempo, em todas as direções. Preciso estar dopada para conseguir lidar com meus sentimentos, meus pensamentos que não param de borbulhar e que me deixam exausta mesmo quando passo um dia inteiro deitada. Poderia ser mais detalhista nesse exercício, do olhar vasto, e ensinar um pouco; ele – este olhar – ficou claro quando assisti ao vídeo da festa de aniversário de dois anos do meu filho. Como não tinha sido eu que o havia gravado, pela primeira vez, pude ver tudo que se passava, enquanto eu existia. Vi a mim mesma, para lá e para cá, presente e distante; nossa, foi lindo. É lindo – está tudo, novamente, acontecendo agora e eu corro o risco, se estiver tão viciada em aguardar retornos aos meus atos, em calar tudo isso com fármacos, de perder esses maravilhosos momentos. 

Preciosidades de todas as ordens: familiares, sociais, sexuais, espirituais, fúteis. Perder momento algum, lindo ou feio, aliás, não posso mais. Não pretendo dar ênfase ao período em que delirava nos meus pensamentos e incansáveis opiniões sobre os que me cercam, mas garanto que nenhuma temporada na Sorbonne poderia oferecer tanto. Tudo me pareceu diferente a partir de lá, sendo sobre essas diferenças que quero falar. É gozado isso, pois este é um assunto que tratei apenas com uma psicóloga e sempre me incomodou o fato de tudo ter acabado ali, no sigilo de uma profissional. Já que o meu marido não sabe de nada do que se passa na minha cabeça esquizoide, meu filho também não e amigos eu não tenho. Segredos, portanto, estou cheia deles e incorporo mais e mais, diariamente, porque tenho meus sentidos apurados, como uma pessoa que já tenha sido encarcerada. Quem passa uma semana trancada num quartinho escuro sem tomar banho e sem querer ver ninguém, não tem jeito, desenvolve uma extraordinária habilidade para desvendar detalhes escondidos.

A propósito, hoje de manhã, comprei os meus remédios na farmácia e notei que a moça que me atendeu, no mês passado, havia clareado os pelos dos braços. Por que uma mulher como ela, trabalhando num lugar daqueles, clareia os pelos dos braços, e um mês depois eu percebo? Esse tipo de coisa que me ocorre, entende? E outras mais sofisticadas, claro, citei essa mais para exemplificar o nível de detalhe. Não pretendo me tornar uma entendedora de coisa alguma, apenas me dou o direito de tirar as minhas conclusões e criar algumas designações; roubando um trocinho dali outro daqui, já que leio muito, porém basicamente me abastecendo de minhas experiências. Por isso denominei esse microscópio” grudado em minhas retinas, e toda essa intuição de sobrevivente, de “boia contra o afogamento do desamparo”. Ou apenas: boia. Porque sinto-a presa ao meu corpo, erguendo-o do nível normal de perigo. É feita de um material especialíssimo, que une medo, frio, sede, fome, dor, saudades e calor de febre. Subprodutos do desamparo, portanto mais leves que ele. Meu Deus, é preciso ter boias resistentes, para quando pularmos das janelas, para quando sentirmos o chão fugir debaixo dos nossos pés. A mesma agonia do bebê, que depende do outro para comer, beber, virar, para tudo – bosta de carência básica infantil, que nos torna para sempre patéticos. 

Maldita genética dramática, que me persegue na sombra. Não quero emocionar ninguém, juro. Quero mais é enfiar um pau no cu dos que se emocionam.