sábado, 3 de dezembro de 2022
Sou porra nenhuma
Dardos no peito.
Thank God
A História da Arte
Penso nisso e isso acontece, vibrando as suas idênticas sensações. Os mesmos corpos das mulheres. Mesmas reentrâncias, mesmos púbis. A mesma memória. Só que cabelos brancos vêm surgindo pelo meu corpo, inclusive em lugares onde é definitivamente estúpido ter cabelos, e eles acabam me lembrando do tempo. Do tempo e, por consequência, dela. Vou ter que esperar uns dez minutos, até passar essa pequena vontade de me matar.
É preciso uma história
Vou justificar a urgência em dormir: procuro sonhar pra livrar meu cérebro da química dele. Imagino-o bem, e isso me mata. A raiva, o apego, a ignorância. Um cigarro que se fuma com vontade.
Sexo. Terror. Mais sexo e terror . É preciso uma história. Você quer uma história, não quer? Eu lhe dou uma meu, amor. Eu sou uma má garota. Bad bad girl. Falam de mim pelas minhas costas. Falam de mim na minha frente. Mas o que eu preciso é de um bom corpo de jurados.
Com o juri certo, serei sempre absolvida.
O cabelo
Ano passado eu fui à praia.
Ninguém tomava coisas para ficar “curtindo um som”, nem para ter sacações, nem para fazer coreografias em boates espelhadas, nem para entender a mensagem subliminar do rock progressivo. As substâncias todas e muitas, consumidas naquela época escaparam dos contextos sociológicos.
Precisava sobreviver? Sim, mas isso é desculpa que vale para tudo. Sendo que não estou me desculpando. Então, 2010, babaca ou doidão, ocorria muito de os babacas serem doidões e de os doidões serem babacas até hoje não existe muito meio termo pra tudo isso.
Pra ser ilustrativa, ano passado fui à praia e vi uma coisa que finjo que não é ridícula: meu marido cruzou com um conhecido na praia e estalou, em dueto com o sujeito, um tapinha no ar. Sabe como?Você conhece esse cumprimento “jovem”? Provavelmente, não, isso não é coisa, creio, muito recente. Na academia de ginástica que eu vou todos os caras fazem assim. E os “caras” normalmente são homens mais velhos, homens com mais de quarenta anos já podem ser considerados velhos, certo? Eu acho e não é porque eu estou caminhando para os 40 que vou dizer que me considero jovem, se bem que, jovem deve ser até no máximo 35 e ponto final, mesmo que todo mundo hoje em dia se comporte feito adolescente. Outra coisa que me chamou atenção nessa mesma viagem de férias à praia - continuo detestando praia, mas finjo que gosto. Então, proponho esses mergulhos tardios pro meu esposo e filho e eles sempre concordam, daí vamos por uns caminhos enlamaçados, cruzando com bandos de gente seminua e cafona; porque nós, os jovens atuais, sabemos apreciar o rústico – e apesar de a praia estar relativamente vazia naquela tarde, um grupo de quatro homens velhos de quarenta e poucos anos com umas três ou quatro crianças de 10 ou 12 anos estacionaram um carro bem ao meu lado. Os adultos, meio bêbados, estavam cantarolando um trecho de Cocaine. Cocaine, sabe? Aquela música do Eric Clapton, pois bem, ficaram cantarolando e olhando diretamente pra mim que estava sentada em cima de um tecido esticado na areia, totalmente vestida num lugar onde pessoas seminuas desfilavam sem pudor algum. Achei a cena dos quatro homens cantando e olhando pra mim patética de tal gravidade, que optei por ignorar cretinamente, mesmo percebendo um interesse deles em interagir comigo.
Esses caras da praia não estavam sendo felizes, tampouco estavam fingindo ser como eu finjo. Nem são uns doidões como eu tentei ser, eles só são a corja da humanidade e devem estar hoje por aí, tomando caipiroscas e fumando um cigarro atrás do outro, tendo conversas acaloradas sobre política e Arnaldo Jabor depois vão colocar um rock velho com direito inclusive a guitarras imaginárias porque querem provar para os filhos que ainda tem aquela aura selvagem e jovem. Só que – eis a questão – eles não são nada disso, nem pais, nem selvagens, nem doidões, são apenas aquele tipo de gente que tentam a todo custo mostrar a juventude que ainda habita neles e com isso, só se mostram ainda mais velhos e patéticos. Eu com certeza não me permitiria ao vexame de tentar provar nada para o meu filho.
Também não gosto de ficar bêbada na frente dele. Nem fumar diante dele eu fumei, ainda fumava de vez em quando e parei de fumar até esporadicamente, não por causa do meu filho ou de ninguém, mas porque acho um cocô sonoro voz de fumante velho. Eu vejo essas quarentonas bronzeadas e loiras com um Marlboro na boca, falando com aquela voz pré câncer – e deus me livre.
Não, nunca me deixaria acabar assim: aos quarenta e poucos, bronzeada, com voz de fumante, cheia de procedimentos estéticos, a boca parecendo um Airbag de pica, indo à praia seminua e fazendo ensaio fotográfico sensual de lingerie na cama e publicando toda essa exposição ao máximo, tomando espumante e tentando resgatar a libido perdida por anos de sexo medíocre com o marido barrigudo que estaciona o carro - provavelmente uma caminhonete - na praia, tomando Red Label com os amigos que cantarolam Cocaine, enquanto eu estou numa roda de mulheres que trocam contatos de dermatologistas.
Não, eu definitivamente não me permito ficar assim. E não me poupo de tudo isso por saúde ou vergonha, mas por estética.
Lembranças musicais
Hipocrisia da negação sistemática.
O Documentário
Faz sempre isso, em todo tempinho que sobra, fumar na sala foi algo fora do comum, já que se importa muito com a possibilidade de seu filho perceber o mau hábito da mãe. Fuma na frente do espelho. Impavidamente assombrada com a imagem que tem. Pois é visível que esse hábito lhe abre os poros e que sua solidão é imensa, é uma condição inerente à sua nova opção de vida. Assim, a última vez que transou foi quando engravidou, mais de dois anos atrás, lembra refazendo as contas. E a ultima masturbação foi antes ainda, já que a ideia de parar tudo pra ficar pensando sacanagem e esfregando o clitóris lhe parece simplesmente ridícula. Sente-se, portanto, incapaz de sequer jantar com um homem – incapacidade que procura justificar de várias maneiras sensatas, nenhuma convincente. Pois ninguém entende tão bela moça, livre, aos 26 anos, adepta da castidade. No entanto, para ela, nada lhe parece mais atraente do que um cigarro, um espelho e uma coca zero. No máximo, quando o filho está dormindo, tira a roupa para poder ver seu corpo.
Esses modernos medicamentos.
Como narradora, acho extremamente desagradável falar de sexo. A bem da verdade, acho desagradável esse assunto em si, em qualquer idade, e se me atenho a ele é porque, a essa altura do campeonato, censurar detalhes como esses, detalhes que traduzem a importância de qualquer história, seria uma imensa tolice. Ser-me-ia mais que desagradável, me sentiria como venho me sentindo a vida inteira: maculando o meu amor como uma mentirosa comum. Principalmente agora, quando isso que escrevo já me rendeu tantas páginas, colocando meu fôlego confessional por um triz. Levando-me necessariamente ao universo dos piores desconfortos, já que infelizmente, meu deus, infelizmente, não me resta alternativa além de falar de outros, e muitos, para, mais uma vez, conseguir estancar minha própria angústia, que está até menor do que era de se esperar, graças aos modernos medicamentos com os quais ando me tratando. Dessa química que prolifera em mim e, pouco a pouco, degenera meu raciocínio. Chamada velhice. Sim, tornei-me uma debiloide muito cedo, com menos de 20 anos. Mas só mais recentemente atingi o ápice da debiloidice. Porque, veja, uma mulher que precisa de comprimidos para controlar seus ânimos é tão somente uma debilitada mental. Senão, vejamos: o tempo passando, a vida construindo sua teia de monotonia ao meu redor, e eu continuamente querendo estar num lugar diferente do que eu estava. Hoje mesmo, parece claro, que não seria aqui, onde estou, onde gostaria de estar. Pura debiloidice, certo? Por que não estou lá então? Falta-me o quê? Faltam-me remédios, disseram-me, por isso a ciência tem me servido diariamente um belo coquetel de dispersão. Coloquem-me numa cadeira de praia, coberta por um guarda-sol, que lá continuarei. Estou sob controle. Não vou chorar por não estar na neve.
Ímãs Opostos
sexta-feira, 2 de dezembro de 2022
True Colors
Mas a escola está fechada. Num papel plastificado, preso no portão, descobre que a secretaria só funciona após as 14 horas. Fica transtornada. Subitamente é tomada por uma tristeza de excepcionais tons negativos. Mulheres são assim, depressivas. Pois transformam simples vontades em necessidades vitais e, diante de uma transitória impossibilidade, distorcem as sensações até torná-las insuportáveis. Uma espécie de TPM zoadical, algo meio físico, meio metafísico, energético, quem sabe, bioquímico, com certeza, que lhes ataca as ideias, enlouquecendo-as. E, por uns segundos, ela pensa seriamente em se jogar em frente a uma Kombi que está vindo. Uma Kombi de frete. Sequer o convite de ir a uma loja e comprar algo que lhe agrade muito, aplacaria aquela decepção. A Kombi passa. Ela, com os olhos marejados de lágrimas confusas, encosta num carro estacionado. Saca o telefone celular da bolsa. Aperta os botões sem convicção de que está acertando o número. Dá na secretária eletrônica. Ela aguarda, calmamente, o bip, para deixar seu recado histérico.
- Sou eu. Me liga, por favor. Estou no celular. Tchau
Como de hábito, instantâneamente arrepende-se do que fez. Pensa no quão patética acabara de ser, revelando sua suscetibilidade a um desconhecido. O seu analista. Durante as consultas, mostra-se tão forte – ou no mínimo engraçada em sua fragilidade. Ligar do meio da rua, pedindo ajuda, pelo celular; e ainda dizer-se no celular. Como se ela estivesse lá dentro dele. Uma mulherzinha esganiçando, malocada num motorola. Desatinei – conclui. Você desatinou... – cantarola, ainda recostada no carro. Tirou partido de mim, abusou. Tirou partido de mim abusou. Tirou partido de mim, abusou. E agora? O que fazer? Para onde ir? É manhã ainda, não pode passar horas parada na frente dessa escola. Não pode voltar pra casa e, muito provavelmente, desistir de tudo. De estudar balé. De experimentar novamente aquela sensação de não ser boa bailarina. Pois ela nunca dançou realmente bem. Dançou bem. Meia-bomba. Esforçou-se. Mas não possuía o talento. Poderia, sim, tornar-se uma professora, ou uma dançarina de fundo de uma companhia também meia-bomba. Quando teve a consciência deste fato, culpou todos os cursos que fizera até então, xingou os pais, e partiu para londres. Crente de conseguir alguma coisa na Royal Academy of London. Never. Completa tolice enganar-se daquela forma. Então encarou o problema de frente. Corajosa. Firme. Ate auto-irônica: eu não sei dançar, tanto quanto eu não sei cozinhar, tanto quanto eu não sei costurar, tanto quanto eu não sei escrever, ou cantar, tocar algum instrumento, pintar, ser mãe, ser filha ou ser a puta que o pariu e foda-se também. Guardou seu sonho. Mascarando o desapontamento numa cara de quem não está nem aí pra nada.
Neste preciso momento, está parada diante de um novo fracasso. E não é mais uma menina. Não é mais uma menina. Não é mais uma menina. Nunca quis ser uma menina. Lembra-se disso. Nunca quis ser uma menina que tem que dar explicações aos outros. E mesmo que as dê, não precisava dar, caso não quisesse. Poderia sumir. Fugir dali para Piricota do Mato Fundo. Esquecer o balé. Esquecer de tudo. Está tendo uma crise de nervos encostada num Passat velho cor verde-pampa. Pelo menos não é uma Brasília. Repara nas duas outras casas, vizinhas à escola. Numa tem uma placa na fachada, é incrível tratar-se de uma casa de repouso. Poderia entrar e tirar uma sonequinha até as duas? Na outra, do outro lado tem uma bandeira. Ela fica intrigada. Consulado polonês?! Será que poderia pedir asilo, e partir para este país sem eira nem beira, com um povo com fama de esquisito? Aproxima-se dessa casa. É bem maior que a da escola. Igualmente sombria. Sente-se tentada a abrir o portão e entrar; só para dar uma olhadinha. E se tiverem cães de guarda, pastores alemães poloneses? Fica na ponta dos pés, diante daquele mistério arquitetônico, para observar-lhe o interior. Que parece vazio. Aí, alguém aparece, um funcionário, e ela morre de medo de levar um esporro. Apesar de não estar fazendo nada de errado. Culpa kafkiana. Daquelas sem motivo. O homem também está ali somente para abrir o portão do lado, onde fica a garagem. E ela vê pela primeira vez o cônsul. Ele está sentado no banco detrás de um carro japonês. Na frente vai o motorista. Ela olha para o passageiro e encontra seus olhos nos dele. Estremece. Encabula. Tudo muito rápido. Tem tempo apenas para pensar em como é estranho um cônsul polonês ter um carro japonês. Injustiça com a pátria sofrida, a Polônia – de péssimos antiquados carros. Quer novamente chorar. Está num mau dia.
Vai para casa. Nem mais se lembra o que aguardava ali na sala. Sabe, porém, que é melhor ficar onde está. Se for lá pra cima, poderá sucumbir à preguiça e dormir. Não quer dormir. Não pode. Está aguardando uma coisa. Que agora lembra o que é, um telefonema. Aguarda um telefonema, portanto não pode dormir. Vidinha estúpida. Sem espaço para rebeldias ou mera contravenção. Desejava do fundo do coração ser umajovem bem doida dessas que sempre se vê por aí. Põe uma música. Egberto Gismonti. Os Tropicálias. Procura a daquele sujeito que fez só uma música que presta, mas que presta tanto que é suficiente. Como é o nome dele mesmo? Eu uso óculos escuros para minhas lágrimas esconder e quando você vem para meu lado, ai, as lágrimas começam a correr. Eu sinto aquela grande confusão. No meu corpo, sangue não corre não. Corre fogo e lava de vulcão. Lá. Láááá. Humm... Das meninas e meninos que eu encontro. Hummmm na na na na nammm... . Não, essa não é a mesma música que a do sangue corre não... Que importa? Eu fiz essa canção falando. Ta ram ram... Ram ram ramm ela vai passando... Merda... Merda! Merda! Merda! Pra quê que eu fui ligar pro meu analista? Ela olha o telefone. Ansiosa. Trêmula. Já passou pela fase do descaso. Já passou por achar que tudo bem, não estou nem aí, o idiota do meu terapeuta não me dá resposta porque ele deve ter percebido, no meu tom de voz, que não era nada importante. E ele está certo. É assim mesmo. É assim que um bom terapeuta deve fazer com um paciente como eu. Eu que, é claro, sou uma pessoa normal, não um desses casos progressivos de loucura. Isso, ele não ligou porque está ocupado. Normalíssimo. Antes, também já pensou: no quanto você, é um pulha, cretino. Que precisa deste joguinho ridículo, tolo, infantil, para provar que eu não sou tão auto-suficiente quanto eu demonstro ser. Mas eu sou! Eu não preciso de você! Ouviu bem? Não preciso! Seu gordinho de merda!... O terapeuta gordinho. É isso que você é. Não adianta ter passado vinte dias num SPA, enquanto todos os seus pacientes enlouqueciam aqui. Não adianta ter emagrecido vinte quilos. Você é o gordinho. Só que agora magro, mas ainda flácido. Depois, poucos minutos atrás, ela pegou o gato no colo, para distraí-la de seus pensamentos sobre o quanto ela precisa falar com o analista. E neste instante, ela acaba de cometer o segundo erro do dia, o mesmo erro, igualzinho ao primeiro: ligou novamente e deixou recado.
- Oi. Sou eu. Novamente. Não estou mais no celular. Estou no telefone de casa.
Que merda federal! Por quê que eu fiz isso? Merda! Hora do terceiro erro:
- Alô, é o seguinte: não precisa mais me ligar de volta. Porque eu não vou estar. Até amanhã.
Quero morrer – este é o estado em que se encontra agora. Jovem moça, sentada no seu sofá, querendo morrer. Enquanto alisa o gato Bruce. Até que é bonitinha, mas tem no rosto uma expressão triste-feia, como convém a quem quer morrer. Por que você esta fazendo esta maldade comigo?... Eu estou tão cansada... Mas tenho que sair, não posso mais esperar por você. Como se você fosse meu pai. Ou meu amante. Ou o ser humano mais importante deste mundo. Eu quero deixar claro que eu realmente não preciso de você. Merda, por quê que eu estou assim, tão mal? Não pode ser só por causa de um médico de merda que não me liga de volta. Que besteira... Por que é então, me diga? Suspira. Levanta-se da maneira que está, amarrotada e abatida, anda para a porta de saída. O gato fica. Ela pára e olha na direção dele, mas não para ele – está tentando se lembrar de algo que desconfia esquecer. Ah, sim. Tira o telefone celular da bolsa, desliga o aparelho e joga no sofá. Não estou mais em casa, nem no celular. Ninguém sabe para onde eu fui.
- Tchau, Bruce. Comporte-se.
Já na rua, pega o primeiro táxi que vê na sua frente. Sabe que o caminho de carro é um pouco mais longo do que o feito a pé e ainda está cedo. Com um pouco de sorte, talvez pegue um engarrafamento, uma trombada, um conserto bem no meio da rua, um caminhão de lixo, um folgado em fila dupla. E os ponteiros pularão de minuto em minuto eliminando aquele incômodo. Inclusive, está se sentindo muito bem ali, num lugar onde ninguém imagina onde estivesse: um Apollo branco. Gostaria de prolongar ao máximo aquele período de exílio. Ficar escondidinha, refugiada. Por onde ela anda? Ih, ninguém sabe, o médico vai ligar e uma das empregadas vai responder: a patroa anda sumida. Então ele vai tentar o celular; e dar na caixa postal, eficiente e fria. Oi, deixe seu recado após o bip, obrigada. Ri. Está cercada de placas, muito bem sinalizada, para conduzir qualquer interessado ao seu presente destino. Tem serviçais adestrados para dar o número do celular, mesmo se ninguém pedir. Quando a casa fica vazia, há a secretária eletrônica aguardando mensagens urgentes, e também oferecendo o número do celular. E há ainda a caixa postal digital do celular, que não oferece outro número, mas que tem memória para cinco mensagens. Ela parece que é uma importante e ocupadíssima profissional – doutora neurocirurgiã. Tem tudo engatilhado para que seja encontrada. Mas na maioria das vezes não há ligações, nem recados, não há pedidos de retorno. Ela é uma mulher rastreada por ninguém. Nem mesmo sua mãe necessita saber por onde a filha anda, sabe que em algum lugar ela estará sem fazer nada demais, de notável, ou imoral. Tanto faz, esta não é a questão. A questão é que ela está ocupando seu dia. Talvez até esteja no colégio. Claro, há os compromissos certos, os com hora marcada, a terapia, a yoga. Atividades que para serem cumpridas pedem apontamento. Resumindo: ela está por aí, levando como pode seus dias de tédio absoluto. E se eu fumasse maconha? Pensa nessa possibilidade, olhando as pessoas que passam na calçada, oculta atrás do vidro do Apollo branco. Seria bom. Seria um outro fazer as coisas de sempre. É. Boa ideia. O táxi vai se aproximando da casa amarela; passa por ela, e só é lembrado de parar diante do consulado polonês. Quanto foi? Aqui. Pode ficar com o troco. Eu sei, mas pode ficar. De nada. Tchau.
Enquanto aproxima-se sabe que não quer maconha. Tudo o que eu queria é que alguém cantasse True Colors pra mim. Que alguém descobrisse onde estou e cantasse pra mim. Eu não repararia nem no inglês. Podia ser num inglês ruim. Ela está voltando para casa, a pé. Satisfeita por ter conseguido marcar suas aulas de dança. Mas muito cansada. Tudo o que ela queria, além de alguém cantando o sucesso de Cindy Lauper no seu ouvido, era dar um beijo na boca sem que isso tivesse que anteceder ao ato sexual, que induzir ao coito, entendeu? Em sua vida, faz tempo, beijo significa somente isso: uma proposta o início do sexo. Não é mais afeto. Não é mais um agarro, apenas. Beijo na boca não é mais beijo na boca. Grande engano, pois boca não tem sexo. Sim, pau é pau, boceta é boceta, mas boca não é nada. Beijo na boca não deve ser sobrecarregado de grandes motivações. Beijo na boca, neste momento, enquanto ela atravessa as rua sem olhar para os lados, é alguém dizendo: “You with the sad eyes / Don’t be discouraged / Oh, I realize / It’s hard to take courage / In a world makes you crazy / And you’ve taken all you can bear / You call me up / Because you know I’ll be there / So don’t be afraid to let them show / Your true colors / True colors are beautiful like a rainbow.”
Ninguém aguenta a realidade.
Devo ser um tipo esquisito de pessoa
Uma genética dramática
Nasci sob o signo da desaprovação, sabe-se lá porquê. Desde pequena, recordo bem disso, nada que partisse de mim agradava as pessoas. Veja bem, quando digo “pessoas” refiro-me a uma maioria cujo meu contato era obrigatório e não por escolha: professores, colegas de escola e depois os de trabalho, parentes que eu não escolhia encontrar todo final de semana, meus pais. Nunca um elogio foi feito, a coisa alguma; jamais um carinho ou palavra animadora, sequer um olhar afetuoso me lembro de ter recebido. Aliás, parecia que essas pessoas não podiam me olhar; sério, não tenho memória dos olhos apontando em minha direção, em momento algum - fora a desaprovação - eu passava por eles como um fantasma, um espectro desagradável que vez por outra e quando fazia algo, era notável sob forma de repreensão. E, conforme fui crescendo, esse abismo entre as pessoas parecia ir aumentando.
Em casa existia aquela mulher fria, dita minha mãe, toda “íntegra e caridosa”, absolutamente preconceituosa e, pior, orgulhosa da sua ignorância. Acho até que herdei essa frieza prática dela e nem isso a fez gostar um pouco de mim.
Chato, mas agora vou ter que dar uma parada. Estou meio enjoada. Essa parte do desamor me atinge o estômago e faltam poucas páginas para eu terminar de ler um livro que me comoveu muito. Parei de ler, agora há pouco, pois senti uma vontade danada de chorar, e não sou boa em abafar rompantes. Também não estou a fim de ficar soluçando em frente ao espelho do banheiro. Mais um hábito que cortei da minha lista. Parei de fumar assim, assistindo ao horror dessa ação no meu reflexo. Não pretendo parar de chorar, claro que não, chorar é saudável, eu sei e sou masoquista, não sei se já deixei isso claro aqui. Foi uma descoberta bem recente que fiz num outro livro que li e explicou o fato de eu ser tão grata ao outro, quando ele repara em mim. Fazendo com que eu aceite qualquer abuso, vindo desse “sujeito amoroso”, como um ato de afeto. É que quando me sinto amada, parece que, enfim, posso viver algum tipo de calma, em ser essa que sou. Alguém que já experimentou a mais cruel das rejeições: a de mãe e pai ao mesmo tempo. Então, no momento que esse “amante gentil”, incrivelmente sábio e bom, olha para mim e me aprova, é como se esses pais negligentes tomassem o corpo dele emprestado, voltando a existir naquele ser momentaneamente “perfeito”, a fazer coisas desagradáveis em mim. E, nisso, eu pudesse sentir o alívio do perdão.
Ora, não estou aqui para me justificar. Se conto isso, é por causa dessa rara qualidade que tenho: a generosidade da alma. Que me faz querer o compartilhar do entendimento. Não somente sobre mim, mas, se você for capaz de perceber, sobre todos nós. Os carentes, os loucos, os chatos, os cansativos. Todos nós somos assim, frágeis, em circunstâncias que fogem ao nosso controle. São as tais ressalvas. A maioria delas provocada à força, quando somos revisitados pela mesma velha, humana e implacável sensação de abandono. Mas voltando à questão: sou masoquista. Auto diagnóstico que dói, porque não gosto de diagnósticos. Já gostei, confesso, quando achava chique ser hipocondríaca. Atualmente, sinto-os como que uma capa de caderno cheio de postites. Essa mania, moderna que detesto de, talvez, precisar de referências para tudo. Marcamos nossos livros de arte, de capa dura, com anotações imaginárias para um dia podermos lembrar: oh, sim, essa cadeira é pré-alguma-coisa, ou pós-alguma coisa, ou da fase intermediária entre uma coisa e outra. Acho isso um saco. Notei essa tendência mais fortemente quando me tornei mãe. As mães querem ser mais cultas ou acham que são, por isso têm mais repertório de designações. E, você sabe, repertório é um troço perigoso nas mãos dos tolos. Um imbecil letrado é algo dantesco. Mil vezes os imbecis ignorantes, mil vezes os analfabetos. São os especialistas em coisa pronta que me oferecem os diagnósticos. As pessoas que conheço e conheci no meio de tanta desaprovação nesses anos todos, por exemplo, são sempre umas experts em ideias gerais. Sabem tudo que já foi dito sobre tudo que já foi pensado sobre os assuntos. Mas são incapazes de criar alguma nova verbalização que altere a anterior. Apenas designam todo mundo, e tudo que todo mundo faz, com algum nomezinho específico.
Voltando ao assunto, quando digo que parei o tal livro e quis chorar, foi porque cheguei num trecho que o autor transcreve, do Schopenhauer, que repetirei em seguida, com um certo constrangimento, pois não verifiquei a citação na fonte. Seria fácil, já que ele é, junto com Nietzsche, um dos meus preferidos; mas foi assim, por meio de um bom bestseller, que tive o azedume do primeiro contato, tão importante, por ser o que produz a identificação; e talvez, com o processo, a cura. Aí vai: “O peso do talento fez com que eu ficasse mais ansioso e desajeitado do que já sou por herança genética. A sensibilidade dos gênios faz com que sofram mais e sejam mais ansiosos. Estou convencido de que há uma ligação direta entre a ansiedade e a inteligência.”
Creia, eu sei que o termo gênio, aplicado a meu caso, não passa de um absoluto exagero. Eu mesma não vejo, em mim, nada de genial – e olha que eu tento. Mas não vou negar que tenho esse talento para o lado mais sensível, para as partes mais chatas da vida, e isso me deixa exposta a mais ataques emocionais que os outros. Sou completamente ansiosa. Mas sou também inteligente e, assim, faço da ansiedade uma motivação artística. Vindo a me tornar o que sou: uma artista da vida real. Uma espécie de atriz performática full time, o tempo inteiro atuando para o mundo exterior, só que secretamente uma cientista, pesquisando todas as reações à minha atuação. Fico espionando, e catalogando na minha cabeça, tudo, nos mínimos detalhes. Então, bem-vindas as minhas oscilações, pois serviram para alguma coisa. Bem-vindos os meus ataques, já que se tornaram texto. Não que eu não vá, com o tempo, querer aplacar os meus nervos. Não quero acabar a louca de pedra que previram, durante minha infância, nem a psicopata, que previram na adolescência, mas estou divagando muito e é isto o que me preocupa: receio que ainda haja algum perigo rondando a minha cabeça. São os meus inimigos invisíveis. A tal da herança genética, acho, manifestada sobretudo em meu perfil obsessivo. Que me põe diariamente em desarmonia.
O meu marido me acusa de às vezes ser chata, insuportavelmente chata. Porra, eu sou é sensível. Ele não sabe o quanto sou boa atriz, sendo agradável o resto do tempo. Ele não sabe que eu sou uma artista de tempo integral. Por isso, e só por isso, eu o perdoo por toda a sua grosseria e raiva desmedidas. Em dias como ontem, quando nada do que ele vociferou, enquanto brigávamos, chegou a me ferir pessoalmente. Sendo a única coisa que eu gostaria é que ele conseguisse, feito consegui, detectar em si próprio toda a chatice, a maluquice e o perigo, que ele costuma apontar nos outros. Eu sinto, e pressinto, e vejo coisas acontecendo 24 horas por dia. Grandes ações tomam forma ao meu redor, ao mesmo tempo, em todas as direções. Preciso estar dopada para conseguir lidar com meus sentimentos, meus pensamentos que não param de borbulhar e que me deixam exausta mesmo quando passo um dia inteiro deitada. Poderia ser mais detalhista nesse exercício, do olhar vasto, e ensinar um pouco; ele – este olhar – ficou claro quando assisti ao vídeo da festa de aniversário de dois anos do meu filho. Como não tinha sido eu que o havia gravado, pela primeira vez, pude ver tudo que se passava, enquanto eu existia. Vi a mim mesma, para lá e para cá, presente e distante; nossa, foi lindo. É lindo – está tudo, novamente, acontecendo agora e eu corro o risco, se estiver tão viciada em aguardar retornos aos meus atos, em calar tudo isso com fármacos, de perder esses maravilhosos momentos.
Preciosidades de todas as ordens: familiares, sociais, sexuais, espirituais, fúteis. Perder momento algum, lindo ou feio, aliás, não posso mais. Não pretendo dar ênfase ao período em que delirava nos meus pensamentos e incansáveis opiniões sobre os que me cercam, mas garanto que nenhuma temporada na Sorbonne poderia oferecer tanto. Tudo me pareceu diferente a partir de lá, sendo sobre essas diferenças que quero falar. É gozado isso, pois este é um assunto que tratei apenas com uma psicóloga e sempre me incomodou o fato de tudo ter acabado ali, no sigilo de uma profissional. Já que o meu marido não sabe de nada do que se passa na minha cabeça esquizoide, meu filho também não e amigos eu não tenho. Segredos, portanto, estou cheia deles e incorporo mais e mais, diariamente, porque tenho meus sentidos apurados, como uma pessoa que já tenha sido encarcerada. Quem passa uma semana trancada num quartinho escuro sem tomar banho e sem querer ver ninguém, não tem jeito, desenvolve uma extraordinária habilidade para desvendar detalhes escondidos.
A propósito, hoje de manhã, comprei os meus remédios na farmácia e notei que a moça que me atendeu, no mês passado, havia clareado os pelos dos braços. Por que uma mulher como ela, trabalhando num lugar daqueles, clareia os pelos dos braços, e um mês depois eu percebo? Esse tipo de coisa que me ocorre, entende? E outras mais sofisticadas, claro, citei essa mais para exemplificar o nível de detalhe. Não pretendo me tornar uma entendedora de coisa alguma, apenas me dou o direito de tirar as minhas conclusões e criar algumas designações; roubando um trocinho dali outro daqui, já que leio muito, porém basicamente me abastecendo de minhas experiências. Por isso denominei esse microscópio” grudado em minhas retinas, e toda essa intuição de sobrevivente, de “boia contra o afogamento do desamparo”. Ou apenas: boia. Porque sinto-a presa ao meu corpo, erguendo-o do nível normal de perigo. É feita de um material especialíssimo, que une medo, frio, sede, fome, dor, saudades e calor de febre. Subprodutos do desamparo, portanto mais leves que ele. Meu Deus, é preciso ter boias resistentes, para quando pularmos das janelas, para quando sentirmos o chão fugir debaixo dos nossos pés. A mesma agonia do bebê, que depende do outro para comer, beber, virar, para tudo – bosta de carência básica infantil, que nos torna para sempre patéticos.
Maldita genética dramática, que me persegue na sombra. Não quero emocionar ninguém, juro. Quero mais é enfiar um pau no cu dos que se emocionam.