sábado, 3 de dezembro de 2022
Dardos no peito.
Ninguém no mundo brincou de jogar dardos no próprio peito feito eu, como fiz minha vida inteira, desde o princípio. Sendo o princípio da minha vida ele, aquele homem branco, vampiro, magrelo, sentado lá, na minha frente. Nada nele indicava o que de fato seria ele. Um jogo de xadrez interminável. Com enormes pausas entre cada pequena jogada. Até suspender o rei. É, tenho um rei suspenso, em brasa, entre meus dedos. Desde que demos nosso primeiro beijo, início de tudo o mais. Até hoje, diante daquele momento, permaneço chocada. Fantasmagoricamente, de forma contínua, escutando o nome dele dentro de mim. Vocês não estão percebendo, mas a minha língua está se movendo, silenciosa e triste no interior da minha boca. E a Língua Portuguesa não aguenta mais a chateação dos meus versos repetidos, repetidos por ele, que tão docemente recebeu a minha língua em sua boca, dando-me um gosto que um milhão de palavras não poderiam traduzir. Porque não há verbo, ou sinal, ou lirismo, que consiga expressar o estranho que foi, o desconforto que foi, saber: esse beijo é o meu beijo. Não me dando chances de esquecê-lo. Pois ali, naquela tarde, no meio dos poucos carros pelo estacionamento, ao nos beijarmos tão livres, tive a experiência mais moderna na minha vida. Isso mesmo, moderna. Palavra confusa e ingrata, de significado impreciso, que passei a me permitir usar, envelhecendo. Para me referir àquele momento. Enfim, sou velha o suficiente, burra o suficiente e ridícula o suficiente para poder dizer: olha, beijar de repente ele, num estacionamento quase vazio, em dois mil e nove, foi, sem sombra de dúvida, a maior manifestação de modernidade que já ouvi falar.
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