sábado, 3 de dezembro de 2022

Sou porra nenhuma

Dançamos muitas músicas e ri de mim mesma. Eu. Eu mesma: corpo e cabeça cheia de cabelos. Meu cérebro estava empapado, do tamanho de uma batata. Quando fui ao banheiro e olhei-me no espelho, quase acreditei ser uma boa atriz. Era tudo mentira! Era batom, perfume e vestido que me levaram a um bar. A um beijo. O problema é que sou tola e carente, mas não me deixo enganar. Se eu pudesse pedir um só pedido seria: pára! Pára esse carro dentro da minha cabeça! Quero descer, estacionar, bater num poste. Sei que preciso aprender a ser menos. Menos dramática. Menos intensa. Menos exagerada. Alguém já desejou isso na vida: ser menos? Pois é. Estranho. Mas eu preciso. Nesse minuto, nesse segundo, por favor, me bloqueie o coração, me cale o pensamento, me dê uma droga forte para tranquilizar a alma. Porque eu preciso. E preciso muito. Preciso respirar, eu não dou conta do meu coração que quer muito. Preciso desatar o nó e sentir menos, sonhar menos, amar menos, sofrer menos ainda – confesso que eu nunca entendi essa máxima hamletiana de “ser ou não ser”. Eu queria que alguém me explicasse de verdade como “não ser”. Se eu soubesse como “não ser”, eu, pelo menos umas duas horas por dia, ficaria sem fazer nada. Tô aqui sem ser nada... nada... sou porra nenhuma –.

Todos nós somos assim, frágeis, em circunstâncias que fogem ao nosso controle. Foi a tal “ressalva” provocada à força, quando fui revisitada pela mesma velha, humana e implacável lembrança de abandono. Talvez eu não perceba, mas devo ter conseguido coisas boas daquele “relacionamento”. Ele era engraçado. Ele era esquisito. Ele dizia que eu era linda. E me fazia ter coragem. Ou melhor: fazia-me ver a coragem que há em mim. Quantas pessoas novas vindo. Tenho só um mundo pela frente. E olhe pra ele. Olhe o mundo! É tão pequeno diante de tudo que sinto. Sofrer dói. Dói e não é pouco. Mas faz um bem danado depois que passa. Descobri, ou melhor, aceitei. Mas agora, com sua licença, não dá mais pra ocupar o mesmo espaço. Meu tempo não se mede em relógios e a vida lá fora, me chama.

Dardos no peito.

Ninguém no mundo brincou de jogar dardos no próprio peito feito eu, como fiz minha vida inteira, desde o princípio. Sendo o princípio da minha vida ele, aquele homem branco, vampiro, magrelo, sentado lá, na minha frente. Nada nele indicava o que de fato seria ele. Um jogo de xadrez interminável. Com enormes pausas entre cada pequena jogada. Até suspender o rei. É, tenho um rei suspenso, em brasa, entre meus dedos. Desde que demos nosso primeiro beijo, início de tudo o mais. Até hoje, diante daquele momento, permaneço chocada. Fantasmagoricamente, de forma contínua, escutando o nome dele dentro de mim. Vocês não estão percebendo, mas a minha língua está se movendo, silenciosa e triste no interior da minha boca. E a Língua Portuguesa não aguenta mais a chateação dos meus versos repetidos, repetidos por ele, que tão docemente recebeu a minha língua em sua boca, dando-me um gosto que um milhão de palavras não poderiam traduzir. Porque não há verbo, ou sinal, ou lirismo, que consiga expressar o estranho que foi, o desconforto que foi, saber: esse beijo é o meu beijo. Não me dando chances de esquecê-lo. Pois ali, naquela tarde, no meio dos poucos carros pelo estacionamento, ao nos beijarmos tão livres, tive a experiência mais moderna na minha vida. Isso mesmo, moderna. Palavra confusa e ingrata, de significado impreciso, que passei a me permitir usar, envelhecendo. Para me referir àquele momento. Enfim, sou velha o suficiente, burra o suficiente e ridícula o suficiente para poder dizer: olha, beijar de repente ele, num estacionamento quase vazio, em dois mil e nove, foi, sem sombra de dúvida, a maior manifestação de modernidade que já ouvi falar.

Thank God

Te encontrei hoje e, olha, graças a deus por eu não ser dessas que imploram afeto. Até porque, hoje eu estava naqueles dias em que quero fumar um Vogue e mandar uns três tomarem no cu e você era um desses três. Porra, dei tudo pra você. Fui possessiva, ciumenta, instável, irrascível, apaixonada. Se a ideia de que o outro teve o que você também teve o incomoda, esqueça isso - se é preciso essa miséria de sentimento, então arranje outra - porque eu sempre acho que jamais vivi nada que se assemelhe remotamente à história que vivo. Você foi diferente do anterior, que foi diferente do anterior, até que eu perca a conta. E é possível que eu me perca porque não enumero em agendas e dou notas, guardo tudo na cabeça e, bem, eu não sou muito boa dela, principalmente se eu falar exclusivamente de sexo, você sabe, não me conheceu numa igreja. Ninguém na nossa situação pode ser ingênuo. Não dá pra manter-se puro a vida inteira porque a vida se encarrega de ensinar as suas durezas. Talvez só escapem dessa maldade os mongoloides e os dementes em geral. E estes não merecem, por incrível que pareça, pena alguma. O resto, o mundo inteiro, estará sempre sujeito a sofrer decepções. Este é o crescimento. Às duras penas o homem cresce. Uns com mais, outros com menos sorte. Mas parece claro que os que mais sofrem tornam-se melhores que os outros. Não no sentido de caráter ou até o sentido de caráter, mas principalmente no que se refere às suas reservas. Todo mundo carrega uma espécie de mala de equipamentos - sua bagagem de vida. O mais sofrido paga pelo excesso, mas tem um bônus de reservas à mão e - se não for burro ou tonto - vai saber sacar dali os instrumentos que o ajudarão a sobreviver, a vencer, ser o melhor. Deve-se não só sobreviver, mas sobreviver bem. Há o que passou pelo diabo e esqueceu sua mala em alguma estação de trem. Este é o idiota. Mas depois falo mais sobre isso. O que eu preciso te dizer é que estou em paz. Me dei conta de que não sou eu quem saí perdendo nessa história. Ponto pra mim e vamos rumo ao zero absoluto. Me esvaziar pra encher de novo. Sim, eu não acredito que o meu amor se transformou, ele esgotou e eu não continuaria levando assim por vários motivos e saiba ainda que muitos desses motivos não são nada nobres. Ainda que eu tivesse a certeza de tudo e confirmasse sempre, não daria certo, pois você sempre foi desconfiado e deve achar que eu uso o meu dom com as palavras e os meus problemas emocionais pra te comover. Por isso encerro o assunto.

A História da Arte

Ela fazia um curso, História da Arte, e fui convidado para dar umas aulas sobre Literatura. Ela, quase da mesma idade que eu, vinte e poucos anos, sentada bem na minha frente, olhando para mim. Que palhaçada. Odeio essa suposta sincronicidade, essas incríveis coincidências, todas umas belas sacanagens do destino comigo. Odeio tê-la desejado imediatamente quando a vi, ao lado de uma mulher mais bonita que ela. E, no fundo, somente tenho registro dela, de seu nariz, sua boca; seus olhos, alinhados aos meus. Seu rosto o tempo todo voltado direto para o meu, escutando perfeitamente cada palavra que eu dizia. Poderia ter reparado na outra, a mais bonita, também atenta à minha falação. Teria sido então um casinho passageiro, tenho certeza, daqueles que tive aos montes.

Penso nisso e isso acontece, vibrando as suas idênticas sensações. Os mesmos corpos das mulheres. Mesmas reentrâncias, mesmos púbis. A mesma memória. Só que cabelos brancos vêm surgindo pelo meu corpo, inclusive em lugares onde é definitivamente estúpido ter cabelos, e eles acabam me lembrando do tempo. Do tempo e, por consequência, dela. Vou ter que esperar uns dez minutos, até passar essa pequena vontade de me matar.

É preciso uma história

Eu estou morrendo por auto-asfixia, ao sufocar essa história toda dentro de mim. Já que ninguém sabe quem eu sou. Eu sou uma falsa à paisana, uma embalagem enganosa, corroendo-me com os segredos ácidos que guardo.
Vou justificar a urgência em dormir: procuro sonhar pra livrar meu cérebro da química dele. Imagino-o bem, e isso me mata. A raiva, o apego, a ignorância. Um cigarro que se fuma com vontade.
Sexo. Terror. Mais sexo e terror . É preciso uma história. Você quer uma história, não quer? Eu lhe dou uma meu, amor. Eu sou uma má garota. Bad bad girl. Falam de mim pelas minhas costas. Falam de mim na minha frente. Mas o que eu preciso é de um bom corpo de jurados.
Com o juri certo, serei sempre absolvida.