Dançamos muitas músicas e ri de mim mesma. Eu. Eu
mesma: corpo e cabeça cheia de cabelos. Meu cérebro estava empapado, do tamanho
de uma batata. Quando fui ao banheiro e olhei-me no espelho, quase acreditei
ser uma boa atriz. Era tudo mentira! Era batom, perfume e vestido que me
levaram a um bar. A um beijo. O problema é que sou tola e carente, mas não me
deixo enganar. Se eu pudesse pedir um só pedido seria: pára! Pára esse carro
dentro da minha cabeça! Quero descer, estacionar, bater num poste. Sei que
preciso aprender a ser menos. Menos dramática. Menos intensa. Menos exagerada.
Alguém já desejou isso na vida: ser menos? Pois é. Estranho. Mas eu preciso.
Nesse minuto, nesse segundo, por favor, me bloqueie o coração, me cale o
pensamento, me dê uma droga forte para tranquilizar a alma. Porque eu preciso.
E preciso muito. Preciso respirar, eu não dou conta do meu coração que quer
muito. Preciso desatar o nó e sentir menos, sonhar menos, amar menos, sofrer
menos ainda – confesso que eu nunca entendi essa máxima hamletiana de “ser ou
não ser”. Eu queria que alguém me explicasse de verdade como “não ser”. Se eu
soubesse como “não ser”, eu, pelo menos umas duas horas por dia, ficaria sem
fazer nada. Tô aqui sem ser nada... nada... sou porra nenhuma –.
Todos nós somos assim, frágeis, em circunstâncias
que fogem ao nosso controle. Foi a tal “ressalva” provocada à força, quando fui
revisitada pela mesma velha, humana e implacável lembrança de abandono. Talvez
eu não perceba, mas devo ter conseguido coisas boas daquele “relacionamento”.
Ele era engraçado. Ele era esquisito. Ele dizia que eu era linda. E me fazia
ter coragem. Ou melhor: fazia-me ver a coragem que há em mim. Quantas pessoas
novas vindo. Tenho só um mundo pela frente. E olhe pra ele. Olhe o mundo! É
tão pequeno diante de tudo que sinto. Sofrer dói. Dói e não é pouco. Mas faz um
bem danado depois que passa. Descobri, ou melhor, aceitei. Mas agora, com sua
licença, não dá mais pra ocupar o mesmo espaço. Meu tempo não se mede em
relógios e a vida lá fora, me chama.